Editorial: Roberto Cidade faltou ao debate. Se a gestão é “trabalho”, por que não encarar as perguntas?

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Ausência no primeiro debate da eleição levanta questionamentos sobre transparência, prestação de contas e disposição do governador para enfrentar o contraditório diante dos eleitores do Amazonas

Por: Manuel Menezes

O primeiro debate entre os candidatos ao Governo do Amazonas deveria representar aquilo que o eleitor mais espera de uma eleição: confronto de ideias, prestação de contas e respostas diante das câmeras.

Mas o governador e candidato à reeleição, Roberto Cidade, decidiu não participar do encontro promovido pela Band Amazonas neste domingo (9).

A campanha justificou a decisão alegando orientação jurídica para não participar de debates antes do início oficial da campanha, marcado para 16 de agosto, além de afirmar que adversários estariam articulando um “jogo combinado” para transformar o encontro em um “palanque de ataques”.

É uma justificativa que pode ser apresentada pela campanha. Mas também pode — e deve — ser questionada pelo eleitor.

O eleitor não pode ser colocado em segundo plano

Quem ocupa o cargo de governador não administra apenas para seus aliados, para sua equipe ou para seus seguidores nas redes sociais.

Administra para toda a população.

E justamente por isso o eleitor tem o direito de ouvir o candidato, fazer comparações e avaliar respostas.

Um debate não pertence a um candidato. Não pertence a um partido. Não pertence aos adversários.

O debate pertence ao eleitor.

Roberto Cidade pode considerar que haveria ataques. Seus adversários podem fazer críticas. Isso faz parte de uma disputa eleitoral.

O que não pode ser confundido é crítica política com falta de democracia.

Se existem acusações ou questionamentos que o candidato considera injustos, o debate oferece exatamente a oportunidade para respondê-los.

A política sem filtro

Nas redes sociais, qualquer candidato escolhe o enquadramento, seleciona as imagens, prepara o discurso e publica exatamente aquilo que deseja mostrar.

No debate, a situação é diferente.

A pergunta vem do adversário ou do jornalista.

A resposta precisa ser dada naquele momento.

Não existe edição.

Não existe roteiro perfeito.

Não existe a possibilidade de simplesmente apagar aquilo que não saiu como planejado.

É justamente aí que está o valor de um debate.

É diante do contraditório que uma candidatura demonstra sua capacidade de argumentação.

A narrativa do “trabalho” também precisa ser confrontada

Roberto Cidade construiu parte importante de sua comunicação política em torno da ideia de trabalho e de resultados.

Pois bem.

Se a bandeira é o trabalho, também deveria existir disposição para prestar contas sobre esse trabalho.

O eleitor precisa perguntar.

O candidato precisa responder.

E a sociedade precisa comparar.

Saúde, segurança, educação, infraestrutura, economia, interior, servidores públicos e investimentos estaduais não podem ser tratados apenas como peças de publicidade.

São problemas reais que afetam milhões de amazonenses.

E quem pretende continuar governando precisa estar preparado para falar sobre eles.

O contraditório não é “baixaria”

Outro ponto merece atenção.

A campanha afirma que os adversários estariam tentando transformar o debate em um “palanque de ataques”.

Mas existe uma diferença fundamental entre ataque pessoal e questionamento político.

Se um adversário pergunta sobre uma obra, uma fila na saúde, uma promessa de campanha, um investimento público ou uma decisão administrativa, responder faz parte do jogo democrático.

É possível discordar da pergunta.

É possível considerar a crítica injusta.

É possível apresentar números diferentes.

Mas a resposta deve ser dada.

É assim que o eleitor escolhe.

E o passado político também precisa ser lembrado

Roberto Cidade não surgiu ontem na política amazonense.

Antes de chegar ao Governo do Estado, construiu uma trajetória no Legislativo e exerceu a presidência da Assembleia Legislativa do Amazonas.

Por isso, sua trajetória pública também está sujeita à avaliação do eleitor.

Quem ocupa espaço de destaque na política precisa aceitar que suas posições, alianças e decisões serão examinadas.

Isso não é perseguição.

É política.

A ausência deixou uma cadeira vazia — e perguntas sem resposta

Enquanto Roberto Cidade não estava no estúdio, os demais candidatos tiveram a oportunidade de apresentar suas posições e responder aos questionamentos.

A cadeira vazia acabou se tornando, inevitavelmente, parte do debate.

E agora existe uma pergunta que não deve ser respondida por este editorial, mas pelo próprio candidato:

quando o próximo debate chegar, Roberto Cidade estará presente para responder diretamente ao eleitor?

Porque campanha eleitoral não pode ser apenas uma sucessão de vídeos produzidos, slogans bem escolhidos e publicações cuidadosamente planejadas.

É preciso também enfrentar o contraditório.

É preciso responder.

É preciso ouvir.

E, acima de tudo, é preciso ter coragem para ficar diante do eleitor sem filtros.

O Amazonas merece uma eleição em que os candidatos estejam frente a frente.

Não para transformar o debate em espetáculo.

Mas para que o cidadão possa comparar trajetórias, propostas, resultados e compromissos.

Quem pede o voto do amazonense também precisa estar disposto a ouvir as perguntas do amazonense.

E essa é uma cobrança que vale para todos os candidatos, inclusive Roberto Cidade.