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Editorial — Quando o Congresso teme investigar, a democracia perde

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Por: [Manuel Menezes]

A decisão de Davi Alcolumbre de barrar o avanço da CPMI do Banco Master não é apenas mais um movimento político nos corredores de Brasília. O gesto representa algo muito mais grave: o enfraquecimento do papel fiscalizador do Congresso Nacional em um momento em que a população exige transparência, investigação e responsabilidade institucional.

Se existem assinaturas suficientes, denúncias em circulação, suspeitas relevantes e pressão popular por esclarecimentos, impedir o avanço de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito passa a transmitir uma mensagem perigosa para o país: a de que determinados temas não podem ser investigados quando atingem setores poderosos.

A CPMI não condena ninguém. Ela não substitui o Judiciário, a Polícia Federal ou o Ministério Público. Seu papel é investigar, ouvir envolvidos, convocar autoridades e apresentar informações à sociedade. Barrar até mesmo o início desse processo gera inevitavelmente dúvidas sobre os reais interesses por trás da resistência.

O mais preocupante é que o Congresso Nacional começa a passar a imagem de uma instituição seletiva, onde algumas investigações avançam rapidamente enquanto outras encontram obstáculos políticos antes mesmo de nascerem. Isso destrói a confiança da população nas instituições democráticas.

Em qualquer democracia madura, suspeitas envolvendo grandes estruturas financeiras e possíveis conexões políticas exigiriam transparência máxima. O correto seria abrir as investigações e permitir que os fatos fossem esclarecidos à luz do dia. Quem não deve, não teme investigação.

Ao bloquear a leitura dos requerimentos, Alcolumbre transforma uma crise investigativa em uma crise institucional. A decisão alimenta teorias, amplia a desconfiança popular e fortalece a percepção de que existe proteção política nos bastidores de Brasília.

O Brasil já vive um ambiente de enorme desgaste entre os Poderes, polarização extrema e descrença pública. Nesse cenário, impedir uma investigação parlamentar só aumenta a tensão e aprofunda a sensação de que existe uma elite política blindada contra qualquer forma de fiscalização.

A democracia não se fortalece escondendo problemas. Pelo contrário: ela se fortalece quando permite que os fatos sejam apurados, mesmo que isso incomode grupos influentes.

Se o Congresso começar a bloquear CPIs por conveniência política, o país entrará em um terreno extremamente perigoso, onde a investigação deixa de obedecer ao interesse público e passa a depender apenas da vontade de quem controla a cadeira do poder.

O Brasil precisa de instituições fortes, transparentes e independentes — não de barreiras políticas contra a apuração dos fatos.