EDITORIAL | O governo que desconfia de si mesmo: aliados de Lula se acusam enquanto o Master contamina as instituições

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Relato de bate-boca entre Jorge Messias e Andrei Rodrigues, diante do próprio presidente, expõe a desconfiança dentro do núcleo de poder petista; crise alcança a Polícia Federal e ministros indicados por Lula ao STF

Por Manuel Menezes

Segundo a jornalista Marcela Mattos, do UOL, o advogado-geral da União, Jorge Messias, e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, teriam trocado xingamentos durante uma reunião na presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

No momento mais explosivo da discussão, Messias teria questionado Andrei: “Está me espionando?”. O episódio teria ocorrido em meio à crise provocada pelos relatórios de inteligência produzidos pela PF no contexto das investigações do Banco Master.

O relato ainda não foi confirmado publicamente pelos envolvidos. Andrei nega que a PF tenha realizado monitoramento ilícito de Messias ou do ministro André Mendonça. A própria documentação conhecida não apresenta evidências de interceptação telefônica, vigilância física ou rastreamento de localização.

Mesmo com essas ressalvas, o episódio é politicamente devastador. Dois homens escolhidos por Lula para funções estratégicas do Estado teriam discutido diante do presidente, com um deles acusando o outro de espionagem.

Não são adversários de Lula. Não são integrantes da oposição. São peças do próprio governo brigando entre si enquanto uma investigação bilionária avança sobre autoridades, banqueiros e instituições.

O escândalo agora está dentro do núcleo de Lula

Jorge Messias é um dos auxiliares mais próximos do presidente e comanda a Advocacia-Geral da União. Andrei Rodrigues foi escolhido por Lula para dirigir a Polícia Federal.

Se o relato estiver correto, o presidente assistiu a dois integrantes de sua confiança trocarem acusações e xingamentos por causa de relatórios relacionados a uma investigação que abalou o Supremo.

Esse quadro mostra um governo que perdeu a confiança até dentro de casa. O chefe da AGU desconfia da Polícia Federal. A direção da PF diz que cumpriu seu dever. Ministros do STF se acusam publicamente. Decisões se atropelam. Relatórios são usados como armas em disputas internas.

O caso Master deixou de ser apenas uma investigação financeira. Transformou-se em um espelho da degradação institucional brasileira.

Relatório sem valor probatório virou arma política

Andrei Rodrigues afirmou que a entrega do relatório sobre André Mendonça ocorreu por determinação de Alexandre de Moraes. Segundo o diretor da PF, os documentos eram lícitos e registravam fatos institucionais conhecidos pelos investigadores.

Há, contudo, um detalhe gravíssimo: o material foi classificado pela própria Polícia Federal como sem valor probatório e não era assinado por delegado. Mesmo assim, foi utilizado para embasar um pedido de investigação contra um ministro do Supremo.

André Mendonça considerou que houve monitoramento ilegal e determinou o afastamento de Andrei. Flávio Dino, indicado por Lula ao STF, reagiu e mandou reintegrar o diretor da PF.

O cidadão comum assiste perplexo: um ministro afasta, outro reintegra, a direção da PF acusa interferência e o chefe da AGU pergunta se está sendo espionado.

Isso não é normalidade institucional. É uma guerra pelo controle das investigações.

Os indicados de Lula estão no centro da crise

É importante separar corretamente as responsabilidades. Alexandre de Moraes não foi indicado por Lula, e André Mendonça chegou ao Supremo por indicação de Jair Bolsonaro.

Mas Lula nomeou Cristiano Zanin e Flávio Dino para o STF. Ambos passaram a participar de decisões diretamente relacionadas à crise do Banco Master.

Dino determinou a reintegração de Andrei Rodrigues. Zanin negou uma liminar que pretendia obrigar o Senado a instalar uma CPI para investigar possíveis relações entre ministros do Supremo e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Zanin argumentou que ainda não estava comprovada uma omissão do presidente do Senado.

Juridicamente, a decisão de Zanin não encerra definitivamente a discussão sobre a CPI. Politicamente, porém, o resultado é evidente: a investigação parlamentar continua travada enquanto o escândalo se espalha pelas principais instituições da República.

Lula prometeu transparência, mas seus indicados aparecem tomando decisões que, na prática, protegem o sistema de uma apuração mais ampla ou preservam integrantes de sua estrutura de poder.

Corrupção em outro patamar institucional

O maior perigo não é apenas o desvio de dinheiro. É a corrupção das próprias instituições criadas para investigar, julgar e fiscalizar.

Quando autoridades brigam pelo controle de relatórios, quando ministros decidem sobre casos que atingem colegas e quando aliados do presidente trocam acusações de espionagem, o problema alcança outro nível.

O Brasil ficou na 107ª posição entre 182 países no Índice de Percepção da Corrupção de 2025, com 35 pontos em uma escala de zero a cem. Foi a segunda pior nota da série histórica. O índice mede percepção institucional e não comprova crime de Lula, mas revela a profunda deterioração da confiança pública.

O governo apresenta como contraponto o número recorde de operações realizadas pela CGU e pela Polícia Federal. Em 2025, a CGU informou ter participado de 76 operações especiais que apuraram R$ 13,6 bilhões em prejuízos. Esse trabalho deve ser reconhecido.

Mas o aumento das operações não absolve o governo de responsabilidade política. Ao contrário: a dimensão dos valores investigados mostra a profundidade dos esquemas que continuam consumindo recursos públicos.

Combater corrupção não é apenas mandar a polícia agir contra prefeitos e empresários. É permitir que a investigação avance quando chega perto de ministros, aliados, familiares e integrantes do núcleo presidencial.

Lula não pode posar como espectador

Lula tenta se apresentar como alguém distante da crise. Não está.

Messias ocupa a AGU porque Lula o nomeou. Andrei dirige a PF porque Lula o escolheu. Dino e Zanin chegaram ao Supremo pelas mãos do presidente.

Quando essas autoridades entram em rota de colisão, Lula não pode fingir que assiste de fora. A crise ocorre dentro da arquitetura de poder construída por seu governo.

O presidente precisa explicar o que ouviu na reunião, por que seus auxiliares teriam trocado xingamentos e se Messias realmente perguntou ao diretor da PF se estava sendo espionado.

Também precisa defender a divulgação dos relatórios, a preservação das provas e uma investigação independente, ainda que alcance pessoas próximas.

A guerra entre aliados revela o tamanho da podridão

O suposto bate-boca entre Messias e Andrei é apenas a superfície. Por baixo dele existe uma disputa pelo controle das informações produzidas no caso Master.

O mais revelador é que os próprios aliados já não confiam uns nos outros. Quando integrantes do mesmo governo começam a se acusar de espionagem, é porque todos sabem que há informações perigosas circulando.

O Brasil não pode aceitar que a Polícia Federal seja instrumento de facções políticas, que relatórios de inteligência sejam usados para intimidar autoridades ou que ministros do Supremo transformem processos em guerras pessoais.

Também não pode aceitar que uma investigação bilionária seja enterrada por decisões fragmentadas, pedidos de vista, disputas de competência e manobras processuais.

O governo Lula prometeu reconstruir as instituições. O que entregou foi um sistema em que aliados brigam, ministros se acusam e a população continua sem saber toda a verdade.

A corrupção alcança outro patamar quando deixa de apenas roubar dinheiro e passa a capturar as instituições responsáveis por combatê-la. É exatamente esse risco que o caso Master e a guerra entre os aliados de Lula colocam diante do país.