EDITORIAL — Bilhões para bancar a eleição, debates cancelados e candidatos ausentes: o contribuinte virou o palhaço dessa democracia?

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Com quase R$ 5 bilhões destinados ao Fundo Eleitoral, Lula e Flávio Bolsonaro deixam de confirmar presença em novo confronto e debate é cancelado; quem pretende governar o Brasil deveria ter disposição para encarar perguntas, adversários e, principalmente, o eleitor

Por Manuel Menezes

O Brasil conseguiu criar uma situação que seria cômica se não fosse financiada com o dinheiro de todos nós.

Temos uma eleição presidencial abastecida por bilhões de reais de recursos públicos. Temos estruturas partidárias gigantescas, programas eleitorais, equipes de marketing, viagens, propaganda e máquinas políticas funcionando a pleno vapor.

Mas, quando chega a hora de colocar os principais candidatos diante do eleitor, frente a frente, para responder perguntas e confrontar propostas, começamos a encontrar cadeiras vazias e debates cancelados.

E quem paga essa conta?

Nós.

O contribuinte brasileiro.

Aquele mesmo cidadão que enfrenta impostos, preços altos e serviços públicos que frequentemente deixam a desejar é chamado novamente para financiar uma das campanhas eleitorais mais caras do mundo político brasileiro.

O Fundo Especial de Financiamento de Campanha destinado às eleições de 2026 alcança aproximadamente R$ 4,96 bilhões. O PL ficou com cerca de R$ 880 milhões e o PT com aproximadamente R$ 615 milhões dessa divisão partidária. Esses valores pertencem aos partidos e não significam que Lula ou Flávio Bolsonaro tenham recebido pessoalmente essas quantias.

Mas isso não diminui a pergunta política.

Ao contrário.

Quanto mais dinheiro público existe no sistema, maior deveria ser a obrigação moral de prestar contas ao público.

Primeiro, o esvaziamento. Agora, o cancelamento

O sinal de alerta já havia aparecido.

No primeiro debate presidencial de 2026, realizado em 23 de agosto, Lula e Flávio Bolsonaro não compareceram. Romeu Zema também desistiu, deixando apenas três candidatos no encontro. Foi o menor número de participantes em um debate inaugural de eleição presidencial desde a redemocratização.

Agora a situação avançou.

O debate presidencial do pool O Momento da Decisão, marcado para 14 de setembro, acabou cancelado depois que Lula e Flávio Bolsonaro, justamente os dois candidatos que ocupam as primeiras posições da disputa, não confirmaram participação dentro do prazo estabelecido pelos organizadores. Outros presidenciáveis haviam confirmado presença.

Primeiro tivemos um debate esvaziado.

Agora temos um debate cancelado.

Qual será o próximo passo?

Uma eleição presidencial disputada apenas por vídeos cuidadosamente editados, redes sociais, discursos para apoiadores e propagandas em que cada candidato controla aquilo que deseja mostrar?

Lula deve explicações. Flávio também.

Este editorial é de oposição, mas oposição séria não precisa fechar os olhos quando a responsabilidade alcança diferentes lados.

Se Lula evita o debate, deve ser cobrado.

Se Flávio Bolsonaro faz o mesmo, também deve ser cobrado.

Não existe justificativa ideológica para fugir do contraditório.

Quem deseja sentar na cadeira de presidente da República e comandar um país continental precisa conseguir sentar diante de outros candidatos durante algumas horas.

Quer governar mais de 200 milhões de brasileiros?

Então responda.

Explique suas propostas.

Defenda seu histórico.

Enfrente críticas.

Diga de onde sairá o dinheiro para suas promessas.

Explique como pretende administrar saúde, educação, segurança, emprego, impostos e dívida pública.

Presidência não é concurso de popularidade.

O marketing substituiu o debate?

Talvez estejamos assistindo a uma transformação preocupante das campanhas eleitorais.

Para uma candidatura que aparece bem posicionada nas pesquisas, participar de um debate pode representar risco. Uma frase equivocada, uma resposta ruim ou um ataque bem-sucedido do adversário pode dominar as redes sociais durante dias.

Do ponto de vista do marketing, portanto, evitar o confronto pode até parecer conveniente.

Mas eleição presidencial não deveria existir para satisfazer estratégias de marketing.

Existe para que o cidadão escolha quem governará o país.

E debate tem justamente aquilo que a propaganda tenta eliminar: imprevisibilidade.

No programa eleitoral, tudo pode ser ensaiado.

O vídeo pode ser regravado.

A frase pode ser editada.

A imagem pode ser escolhida.

No debate, não.

Existe adversário.

Existe pergunta.

Existe réplica.

Existe cobrança.

E talvez seja exatamente por isso que o debate seja tão necessário.

Bilhões públicos exigem prestação de contas

Precisamos também acabar com uma confusão.

Os quase R$ 5 bilhões do Fundo Eleitoral não são dinheiro destinado aos debates. São recursos distribuídos aos partidos para financiamento das campanhas conforme a legislação.

Mas é justamente aí que está a indignação.

Se o Brasil decidiu colocar tamanha quantidade de dinheiro público à disposição do sistema eleitoral, é razoável exigir que esse sistema ofereça ao cidadão o máximo possível de transparência e confronto democrático.

Não estamos falando de alguns milhões.

Estamos falando de bilhões.

Dinheiro suficiente para fazer qualquer contribuinte perguntar:

e a minha contrapartida como eleitor é qual?

Assistir somente àquilo que o marqueteiro do candidato decidiu que eu deveria assistir?

Não somos palhaços

Existe um limite para aquilo que pode ser tratado como simples estratégia eleitoral.

O cidadão não pode servir apenas para três coisas: pagar imposto, financiar campanha e apertar o botão da urna.

Ele precisa ser respeitado durante o processo.

E respeito significa apresentar propostas e aceitar questionamentos.

Quando bilhões de recursos públicos entram no sistema eleitoral e, ao mesmo tempo, o eleitor vê os principais presidenciáveis ausentes de um debate e depois outro encontro ser cancelado pela falta de confirmação dos líderes da disputa, existe uma contradição evidente.

É por isso que uso uma palavra forte:

palhaço.

Porque é assim que muitos brasileiros podem se sentir diante dessa situação.

Pagamos a estrutura.

Pagamos os fundos públicos.

Financiamos, como sociedade, uma parte enorme dessa engrenagem.

E ainda precisamos implorar para que aqueles que querem administrar o nosso dinheiro apareçam diante de uma câmera e expliquem o que pretendem fazer com ele?

Não.

Democracia não pode ser apenas propaganda

Democracia não significa apenas realizar eleição.

Também significa contraditório.

Fiscalização.

Imprensa livre.

Cobrança.

Transparência.

E disposição dos candidatos para serem questionados.

Quem está liderando pesquisa não recebe salvo-conduto para evitar perguntas.

Quem está atrás também não.

Direita e esquerda precisam ser submetidas ao mesmo princípio.

Quer meu voto? Responda às minhas perguntas.

A conta chega para nós

No final, sobra uma imagem desconfortável.

De um lado, bilhões de reais disponíveis para financiar campanhas.

Do outro, um eleitor procurando onde assistir aos principais candidatos confrontando diretamente suas ideias.

É esse o espetáculo eleitoral que o contribuinte brasileiro está pagando?

Porque, se há dinheiro para propaganda, estrutura partidária e campanha, deveria existir disposição de sobra para prestar contas ao cidadão.

Lula precisa comparecer.

Flávio Bolsonaro precisa comparecer.

Todos os candidatos precisam entender que debate não deveria ser encarado como favor concedido à televisão.

É respeito ao eleitor.

O Brasil não pode normalizar uma campanha presidencial na qual os candidatos tentam controlar todas as perguntas, todos os ambientes e todos os riscos.

Muito menos quando grande parte da festa política é financiada pelo cidadão.

Bilhões para campanha e cadeiras vazias para o debate não combinam.

E se querem continuar pedindo nosso dinheiro e nosso voto, existe uma exigência mínima:

apareçam, debatam e prestem contas.

Porque o brasileiro já paga caro demais por essa eleição para ainda ser tratado como palhaço.


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