Na denúncia federal dos Estados Unidos contra Nicolás Maduro, o ex-ditador venezuelano é acusado de ter coordenado, por décadas, uma operação de narcoterrorismo que enviava cocaína em grande escala ao território norte-americano. Tudo com o auxílio de membros próximos de seu círculo.
Pelo documento tornado público neste fim de semana, o grupo manteve ligações com algumas das organizações criminosas e terroristas mais violentas do mundo. Maduro, de acordo com o relatório norte-americano, iniciou suas atividades ilegais muito antes de assumir o governo do país sul-americano, em 2013.
Teriam sido articuladas remessas massivas em parceria com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e o Tren de Aragua, com cargas destinadas ao mercado norte-americano.
O processo, apresentado ao Tribunal Distrital do Distrito Sul de Nova York, sustenta que, por mais de 25 anos, “líderes da Venezuela abusaram de suas posições de confiança pública e corromperam instituições antes legítimas para importar toneladas de cocaína para os EUA”.
Maduro e sua mulher, a ex-primeira-dama venezuelana Cilia Adela Flores de Maduro, foram notificados das acusações nesta segunda-feira, 5. O casal foi capturado em Caracas na madrugada do último sábado, 3, e levado para um presídio em Nova York.
“Sou inocente. Não sou culpado. Sou um homem decente”, declarou Maduro ao juiz Alvin Hellerstein, condutor da audiência de pouco mais de meia hora na tarde desta segunda-feira, 5. O líder bolivariano considera que foi sequestrado pelas forças norte-americanas. “Ainda sou presidente do meu país.”
As acusações incluem conspiração para narcoterrorismo, para importação de cocaína e crimes envolvendo metralhadoras e artefatos destrutivos.
Maduro é considerado figura central do esquema, usando cada cargo que ocupou, de legislador a ditador, para facilitar o tráfico. De acordo com a denúncia, “Nicolas Maduro Moros… associou-se a seus co-conspiradores para usar a autoridade obtida ilegalmente e as instituições que corrompeu a fim de transportar milhares de toneladas de cocaína para os EUA”.
Os promotores descrevem que, ainda como membro da Assembleia Nacional (de 2000 a 2006), ele “movimentava cargas de cocaína sob a proteção das forças de segurança venezuelanas”.

Depois de assumir o ministério das Relações Exteriores, em 2006, Maduro “forneceu passaportes diplomáticos venezuelanos a traficantes de drogas e facilitou cobertura diplomática para aviões usados por lavadores de dinheiro na repatriação de recursos do narcotráfico do México para a Venezuela”.
Entre os acusados, ao lado dele e de Cilia, estão o ministro do Interior da Venezuela, Diosdado Cabello; o ex-ministro Ramón Rodríguez Chacín; o filho de Maduro, Nicolás Ernesto Maduro Guerra, conhecido como “Nicolasito” e “O Príncipe”; e Héctor Rusthenford Guerrero Flores, identificado como líder do Tren de Aragua.
Sob comando do crime organizado
Na denúncia do Departamento de Justiça dos EUA, a Venezuela é caracterizada pelos promotores como um Estado dominado pelo crime organizado, onde Maduro “hoje se encontra no topo de um governo corrupto e ilegítimo que, por décadas, utilizou o poder estatal para proteger e promover atividades ilegais, incluindo o tráfico de drogas”. Segundo a acusação, o esquema beneficiou elites políticas, militares e a própria família de Maduro.
Também é ressaltado o papel do Cartel de Los Soles, considerada uma rede de oficiais corruptos das Forças Armadas e da inteligência que protegiam remessas de cocaína em troca de lucros. O tráfico teria se tornado tão extenso que, “por volta de 2020, o Departamento de Estado estimava que entre 200 e 250 toneladas de cocaína transitavam anualmente pelo país”.
A droga, segundo o documento, era enviada por via marítima e aérea, utilizando “lanchas rápidas, barcos de pesca e navios porta-contêineres”, além de pistas clandestinas e aeroportos comerciais sob controle de autoridades corruptas.
Maduro é acusado de se associar a cartéis
A denúncia descreve que Maduro e seus aliados, além das Farc e do Tren de Aragua, teria se associado a cartéis e grupos terroristas estrangeiros. Por meio dos lucros do tráfico de drogas, os réus forneceram apoio a organizações terroristas estrangeiras, segundo os promotores.
“Maduro Moros e seus co-conspiradores, por décadas, associaram-se a alguns dos traficantes de drogas e narcoterroristas mais violentos e prolíficos do mundo”, relata o documento. “Entre os atos detalhados, constam a venda de passaportes diplomáticos a traficantes e a autorização de voos privados transportando recursos do narcotráfico sob cobertura diplomática, sem fiscalização.
Já Cilia Flores é acusada de ter aceitado “centenas de milhares de dólares em propinas” para intermediar proteção a voos carregados de cocaína, com pagamentos continuando a cada remessa.
Um episódio marcante envolve um carregamento de mais de 5,5 toneladas de cocaína em 2006, transportado em um jato DC-9 da Venezuela para o México. Apesar da apreensão pelas autoridades mexicanas, os promotores afirmam que subornos pagos a altos funcionários venezuelanos impediram prisões.
O processo também acusa Maduro e Cilia de manterem grupos armados, os colectivos, para proteger a rede de tráfico e cobrar dívidas. Segundo os promotores, eles “ordenaram sequestros, espancamentos e assassinatos contra aqueles que lhes deviam dinheiro do tráfico de drogas ou que, de outra forma, prejudicavam a operação”.
Nicolasito, filho do presidente, teria desempenhado papel ativo, supervisionando remessas em aeronaves da estatal petrolífera e, em uma ocasião, afirmando que o avião “podia ir aonde quisesse, inclusive aos EUA”.
A denúncia solicita o confisco de bens ligados aos crimes, cobrindo o período de 1999 a 2025, e lembra que os acusados permanecem inocentes até comprovação judicial.











