COLUNA | Lula se irrita com “bandeira branca” do STF: desde quando cumprir a lei virou favor à direita?

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Segundo Debora Bergamasco, recuo de ministros ligados a Moraes teria sido um “balde de água fria” no presidente; Justiça não pode funcionar como trincheira de governo contra adversários

Por Manuel Menezes

A informação divulgada pela jornalista Debora Bergamasco é grave. Segundo a apuração apresentada pela CNN Brasil, Lula teria ficado indignado após perceber um recuo de ministros do STF na ofensiva contra a direita. Os recentes gestos de distensão foram classificados como uma espécie de “bandeira branca” aos adversários do governo.

É importante esclarecer: não se trata de uma declaração pública e direta de Lula, mas de uma informação jornalística sobre seu estado de espírito após uma conversa com o ministro Flávio Dino.

Se a apuração estiver correta, a reação atribuída ao presidente revela uma compreensão perigosa sobre o papel do Judiciário. Desde quando o STF precisa manter uma ofensiva permanente contra determinado grupo político? Desde quando respeitar garantias legais passou a representar um favor concedido à direita?

A própria expressão “bandeira branca” denuncia o problema. Bandeira branca existe em guerra. O STF, entretanto, não deveria estar em guerra contra a direita, contra a esquerda ou contra qualquer parcela da população brasileira. Ministros não são soldados de governo, e decisões judiciais não podem ser utilizadas como armas eleitorais.

Entre os atos interpretados como acenos estão a progressão de regime concedida a Débora Rodrigues, conhecida como Débora do Batom, e o arquivamento de uma investigação contra Alfredo Gaspar. No caso de Gaspar, o próprio STF informou que a decisão acolheu parecer da Procuradoria-Geral da República e foi fundamentada na ausência de indícios mínimos para a abertura de inquérito.

Isso não é “bandeira branca”. É obrigação institucional. Se não existem provas suficientes, o Estado não pode investigar ou condenar alguém apenas por sua posição política.

Lula passou boa parte de seu governo defendendo o Supremo e afirmando que críticas à Corte poderiam atingir a estabilidade institucional. Depois do primeiro turno, porém, criticou publicamente a suposta “promiscuidade” existente no STF. Agora, conforme a apuração da CNN, estaria incomodado porque ministros começaram a reduzir a tensão com a direita.

O presidente não pode exigir independência do Judiciário somente quando as decisões atingem seus adversários. Quem realmente defende as instituições precisa aceitar que a lei também proteja aqueles de quem discorda.

A preocupação com um possível abafamento das investigações do Banco Master pode ser legítima. Mas a resposta deve ser transparência, investigação técnica e respeito ao devido processo legal — nunca a manutenção de uma ofensiva política do STF contra a direita.

Se essa chamada “bandeira branca” significa menos perseguição, mais equilíbrio e decisões baseadas em provas, ela não deveria irritar ninguém. Deveria ser recebida como o início de uma correção necessária.

O Brasil não precisa de um Supremo a serviço da esquerda nem de um Supremo a serviço da direita. Precisa de uma Corte a serviço da Constituição.

Se Lula se incomoda quando o STF deixa de tratar seus adversários como inimigos, o problema não está na bandeira branca. Está na expectativa de continuar usando a Justiça como escudo político e arma contra quem pensa diferente.