Por: [Manuel Menezes]
A visita oficial de dirigentes da Justiça Militar brasileira à China levanta um questionamento inevitável: o que exatamente representantes de uma instituição vinculada a um país democrático foram buscar como exemplo em uma das maiores ditaduras do planeta?
A China não é uma democracia. Não existe liberdade plena de imprensa, oposição política livre, eleições abertas nos moldes ocidentais ou independência total entre os Poderes. O regime chinês é controlado pelo Partido Comunista Chinês, que concentra o poder político, limita direitos civis e mantém rígido controle sobre informação, internet e dissidência política.
É justamente por isso que causa estranheza ver integrantes da Justiça Militar brasileira realizando encontros institucionais, debates estratégicos e aproximações oficiais com estruturas ligadas ao sistema político chinês.
O problema não está em manter relações diplomáticas. Países dialogam entre si o tempo inteiro. O ponto central é outro: quais referências institucionais podem ser extraídas de um regime autoritário para aplicação em um país que, pelo menos no papel constitucional, ainda se define como uma democracia?
A preocupação aumenta quando se observa o momento político vivido pelo Brasil. Nos últimos anos, o país mergulhou em debates intensos sobre:
- liberdade de expressão;
- censura;
- ativismo judicial;
- ampliação do poder institucional;
- perseguição política;
- controle de redes sociais;
- monitoramento digital.
Enquanto isso, a China é conhecida justamente por possuir um dos sistemas de vigilância estatal mais sofisticados do mundo, com censura online, controle massivo da população e repressão severa contra opositores políticos.
Então a pergunta que parte da sociedade inevitavelmente faz é: que tipo de “cooperação estratégica” interessa a instituições brasileiras em um ambiente político como esse?
A situação se torna ainda mais delicada quando envolve a Justiça Militar — um setor diretamente ligado à hierarquia, disciplina, poder estatal e estrutura das Forças Armadas. Em qualquer democracia saudável, instituições dessa natureza deveriam buscar referências prioritariamente em países que valorizam:
- independência institucional;
- garantias individuais;
- liberdade política;
- direitos civis;
- transparência democrática.
A China representa justamente o oposto disso em diversos aspectos.
É impossível ignorar que regimes autoritários frequentemente utilizam o discurso de “estabilidade”, “ordem” e “segurança institucional” para justificar mecanismos de controle social cada vez maiores. A história mundial mostra isso repetidamente.
O Brasil já vive um ambiente de forte tensão entre Poderes, insegurança jurídica e crescente desconfiança popular nas instituições. Nesse cenário, qualquer aproximação institucional com modelos autoritários naturalmente gera preocupação e desconfiança pública.
Democracias se fortalecem com mais liberdade, mais transparência e mais limites ao poder — não com referências vindas de sistemas conhecidos mundialmente pelo controle rígido sobre sua população.
Se autoridades brasileiras desejam fortalecer instituições nacionais, o melhor caminho deveria ser aprofundar valores democráticos, e não buscar inspiração em estruturas que sobrevivem justamente pela ausência deles.











