Por: Manuel Menezes
O governo federal decidiu manter o cronograma de elevação do imposto de importação sobre carros elétricos e híbridos, que pode chegar a até 35% nos próximos meses. A decisão, tomada pela Câmara de Comércio Exterior (Gecex), reforça uma estratégia de proteção à indústria nacional, mas também levanta questionamentos sobre o impacto direto no bolso do consumidor e no ritmo de modernização da frota brasileira.
Na prática, a medida torna os veículos eletrificados importados significativamente mais caros em um momento em que o mundo inteiro acelera a transição para tecnologias mais limpas, acessíveis e eficientes. Enquanto outras economias ampliam incentivos para popularizar carros elétricos, o Brasil adota um caminho que tende a encarecer justamente o acesso a essa tecnologia.
O governo argumenta que o objetivo é estimular a produção local e fortalecer a indústria instalada no país. No entanto, essa estratégia, na prática, cria uma barreira de entrada que reduz a concorrência e protege o mercado interno da pressão competitiva internacional — um fator historicamente importante para a redução de preços e aceleração da inovação.
Mesmo com a criação de uma cota temporária de importação com imposto zerado por seis meses, no valor de US$ 463 milhões, o efeito geral da política segue sendo de aumento progressivo da carga tributária. Trata-se de uma solução paliativa que suaviza o impacto imediato, mas não altera a tendência estrutural de encarecimento dos veículos importados.
O resultado prático dessa política é claro: menos acesso a tecnologia de ponta e preços mais altos para o consumidor brasileiro. Em um mercado ainda em fase inicial de eletrificação, qualquer aumento de custo tem efeito direto na velocidade de adoção desses veículos.
Há também um debate mais amplo que precisa ser enfrentado. Ao mesmo tempo em que o governo fala em desenvolvimento industrial e transição energética, adota medidas que, na prática, dificultam a popularização de uma tecnologia considerada estratégica para o futuro da mobilidade global. Essa combinação evidencia uma política econômica que oscila entre estímulo e restrição, sem clareza sobre qual caminho pretende consolidar.
Outro ponto sensível é a dependência de decisões tributárias como instrumento central de política industrial. Em vez de criar um ambiente competitivo e previsível, o país recorre a ajustes fiscais que, embora possam proteger setores específicos, acabam gerando incerteza para investidores e consumidores.
No fim, o impacto recai sobre quem está na ponta: o cidadão que deseja trocar de carro, reduzir custos com combustível e aderir a uma tecnologia mais moderna, mas encontra um cenário cada vez mais caro e restritivo.
