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ARTIGO: Ônibus incendiados e lugar de fala

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Por Warly Bentes Pontes Jr. 

Paus e pedras. Essas eram as armas de uma população que cansada das péssimas condições do transporte público em Manaus, depredou e queimou vários ônibus numa manhã de setembro. Sem lideranças, sem organização de movimentos sociais, sem partidos políticos, sem palavras de ordem… Na hora de sair de casa para trabalhar ou estudar,  pais e mães, chefes de família, jovens, estudantes, gente simples de um bairro pobre e sofrido da periferia, explodiram numa revolta histórica. Resultado de uma ebulição social que já durava anos. Uma manifestação forte e naturalmente humana. E eu estava lá e vi tudo acontecer.

Era 1988, véspera das eleições municipais. Eu desde o primeiro período de Jornalismo na UFAM (Universidade Federal do Amazonas) já estava empregado como “foca” (repórter inexperiente) na TV Amazonas (Rede Globo), levado pela jornalista Shirley Assis, colega da faculdade. Para chegar ao campus universitário e à emissora, muitas vezes enfrentei as péssimas condições dos ônibus da cidade: eram poucos, velhos, circulavam lotados e de vez em quando ficavam em pane no meio do caminho. Eu sabia, portanto, o que a população de Manaus enfrentava.

No dia da “Revolta do São José” (nome do bairro originado de invasões de terras) eu cheguei cedo à redação do jornalismo da emissora. O núcleo era comandado pelo jornalista Sérgio Bartholo, o Serginho. Ele disse que alguém ligou avisando sobre o clima no bairro e nos enviou para ver o que estava acontecendo. Entre os membros da equipe estava o talentoso cinegrafista Sidney Mendonça. O motorista era o “Gaúcho” (não lembro do seu nome, nem quem era o operador de áudio), éramos 4 profissionais na equipe.

Quando chegamos o “quebra-quebra” estava em andamento. Fomos os primeiros da imprensa a chegar ao local e fiz imediatamente um “Stand Up” (um flash, um vídeo rápido com as primeiras informações) para entrar imediatamente no ar. Fizemos vários no decorrer da manhã. O equipamento de gravação era o  U-matic da Sony, com a câmera separada do gravador – grande e pesado – ligados por cabos. O Gaúcho tinha que levar a fita pessoalmente até a emissora para edição e exibição.

Durante umas 3 horas, os moradores sequestraram, quebraram e incendiaram 7 ônibus e 2 caminhões e os empurravam de uma ribanceira (um morro) onde passa a rua principal do bairro São José. Eram muitos moradores revoltados que quebraram ainda paradas de ônibus, rasgaram cartazes e destruíram placas de outdoor com propaganda de políticos. A polícia só interveio na situação por volta das 11 horas da manhã prendendo os mais exaltados. O prefeito na época, Alfredo Nascimento, foi ao local tentar acalmar os moradores. Mas foi hostilizado e teve que sair escoltado pelas forças de segurança.

Os moradores também agrediram e expulsaram dali jornalistas de outras emissoras de TV e de jornais impressos, especialmente os do jornal “A Crítica”. Quem os expulsou identificavam-os como apoiadores do “candidato do poder” (Gilberto Mestrinho apoiado pelo governador Amazonino Mendes). De fato, poucos dias depois Artur Neto, oposição, ganhou a eleição para prefeito de Manaus. E a revolta de São José teve um peso significativo na sua vitória. Antes da eleição, Artur foi pedir votos nas salas de aula da faculdade. Quando me viu, ele reconheceu a força política do fato e elogiou minhas reportagens naquele dia. Mas o mérito nunca foi só meu. Quando um repórter ou apresentador aparece na tela da TV ele é só a parte visível do trabalho de toda uma equipe de profissionais. Além de Serginho e Sidney Mendonça, lembro ainda de outros colegas na cobertura daquele dia: Marcus Alberto Stoyanovitch, Jacira Oliveira, Francisco Santos, Benjamin, Evandro Lobo, João Vicente, Fernando Reis, Ademar Serra, Marcos Santos e tantos outros.

Nossa equipe de reportagem foi a única que os revoltosos deixaram ficar trabalhando no local, por causa das entradas durante a programação da TV. Eles disseram que éramos os únicos a mostrar a “verdade” dos fatos. Até hoje circula na internet um vídeo da minha matéria principal sobre esse dia. Eu, jovem, magro, feio, todo mal vestido e com cabelo (rs).

VEJA O VÍDEO:

Nos dias atuais o conceito de verdade e o papel do jornalista diante dos fatos geram muitas discussões. Naquele dia eu fiz o que aprendi como repórter da Rádio Alvorada de Parintins (AM) e com os colegas jornalistas daquela redação: escrevi, falei o que vi e deixei que as pessoas expressassem sua fúria. Sem emitir opinião, sem julgar, sem atribuir valor… Quem falou sobre o sofrimento com a precariedade dos ônibus foram as pessoas que eram obrigadas a utilizar eles todos os dias. O povo daquele bairro teve VOZ através do jornalismo da TV Amazonas, como dizem, hoje, os “intelectuais” e formadores de opinião, teve seu “LUGAR DE FALA”. Será que esse conceito, tão explorado por alguns, se aplica a nossa cobertura jornalística da revolta de São José? Vejamos.

Historicamente a expressão “lugar de fala” emerge no interior das teorias críticas do século XX, especialmente a partir do feminismo negro, dos estudos pós-coloniais e da teoria crítica da raça. Seu ponto de partida é legítimo: nem todos falam a partir das mesmas condições históricas, sociais e simbólicas, e ignorar isso produz injustiça epistêmica.

Autoras como Gayatri Spivak, ao perguntar “Pode o subalterno falar?”, evidenciam como estruturas de poder moldam quem pode ser ouvido. No mesmo sentido, Patricia Hill Collins demonstra que o conhecimento não é neutro: ele nasce de posições sociais concretas, historicamente situadas. Até aqui, o conceito funciona como ferramenta crítica — não para calar, mas para revelar assimetrias invisíveis no debate público.

O problema começa quando o lugar de fala deixa de ser categoria analítica e se converte em critério de exclusão discursiva. Nas redes sociais, o conceito passa a operar como selo moral de autorização: “você não pode falar sobre isso”, “sua opinião não conta”. A discussão deixa de ser julgada pela consistência dos argumentos e passa a ser decidida pela identidade de quem fala.

Aqui, a crítica filosófica se impõe. Para Jürgen Habermas, a legitimidade do debate público depende da possibilidade de participação universal em condições de argumentação racional. Quando a palavra é interditada previamente, rompe-se o princípio básico da razão comunicativa: não é a origem do falante que valida o discurso, mas sua capacidade de ser questionado e defendido publicamente. Hoje essa PARTICIPAÇÃO UNIVERSAL e a ARGUMENTAÇÃO RACIONAL  está sequestrada nas universidades públicas brasileiras por professores e estudantes barulhentos que só permitem o pensamento e a fala da ideologia de esquerda. Isto ainda acontece nos ambientes que por serem públicos deveriam ser plurais, como prevê a democracia.

Karl Popper alerta que toda ideia que se torna imune à crítica se aproxima do dogma. Em A sociedade aberta e seus inimigos, ele afirma que o progresso intelectual só é possível onde há liberdade para errar, contestar e revisar. Blindar discursos com base na identidade é substituir o pensamento crítico por autoridade moral.

Por fim, Isaiah Berlin lembra que o pluralismo é o coração da liberdade. Quando uma única forma de experiência reivindica o monopólio da verdade, mesmo em nome da justiça, o resultado não é emancipação — é conformismo intelectual.

O paradoxo é evidente: um conceito criado para ampliar vozes passa, em muitos casos, a restringi-las. Reconhecer desigualdades históricas é indispensável. Mas converter identidade em critério absoluto de verdade é abandonar a esfera pública em favor de tribunais morais.

O “lugar de fala” nasceu para expor desigualdades, não para suspender o debate. Quando deixa de ser instrumento crítico e vira carteira de autorização moral, algo essencial se perde: a política, a filosofia e o pensamento.

Ideias não se tornam verdadeiras porque quem fala sofreu mais.

E tampouco se tornam falsas porque quem fala não pertence ao grupo “correto”.

Quando a identidade substitui o argumento, o debate acaba. Quando a biografia vira escudo contra a crítica, a razão recua. E onde a crítica é proibida, o dogma floresce — mesmo vestido de justiça.

A pergunta decisiva não é “quem pode falar?” É “o que está sendo dito resiste à crítica?” Se a resposta for não, não estamos diante de emancipação.

Estamos apenas trocando censores antigos por novos.

Na “Revolta do São José”, acredito que SIM, os moradores usaram do SEU LUGAR DE FALA. Hoje as redes sociais e o mau jornalismo estão desvirtuando este conceito. Eu acredito que  verdadeiro desafio democrático não é decidir quem pode falar, mas garantir que toda fala possa ser contestada, ouvida e respondida.

Sem isso, o “lugar de fala” deixa de ser crítica — e se torna algo como uma regra de uma seita. E você amigo leitor, qual a sua opinião sobre este tema? Quem, por exemplo, tem “lugar de fala” sobre o que está acontecendo na Venezuela e no Irã?