Menu

ARTIGO: Morrendo afogado mas agarrado a uma ideia

WhatsApp
Facebook
Telegram
X
LinkedIn
Email

Por Warly Bentes Pontes Jr. 

Eu nasci no interior do município de Oriximiná no Pará. Um lugar lindo, um paraíso amazônico chamado “Igarapé dos Currais” (Igarapé – linguagem indígena – tupi guarani – que significa “caminho da canoa”. Currais – plural de “curral”, cercado para o manejo de animais – gado, cavalos, ovelha etc). Lá eu vivi até os 4 anos de idade quando meus pais nos trouxeram para Manaus/AM. Me considero amazonense, mas guardo boas lembranças e nunca esqueço minhas raízes de caboclo ribeirinho.

Um episódio que me marcou, e lembro perfeitamente, aconteceu quando devia ter 2 ou 3 anos. Fui brincar na ponte de madeira à margem do rio. Caí na água por acidente e afundei. Não havia correnteza, mas numa ação de instinto, penso eu, me agarrei na estaca de madeira que sustentava a ponte. E lá fiquei no fundo alguns bons segundos agarrado àquela que, naquele momento, achava que era literalmente a minha “tábua de salvação” (rs). Teria com certeza morrido afogado se meu pai, Warly Bentes Pontes, não tivesse mergulhado para me arrancar da estaca e me salvar. Essa foi a primeira vez que meu pai me salvou (fisicamente, as outras foram emocionais, espirituais e profissionais).

A reflexão deste fato no começo da minha vida é a de “como a mente humana cria fugas da realidade”. Naquele momento, no fundo do rio, eu realmente acreditava que agarrado à sustentação da ponte estava salvando minha vida. Vivi outra experiência desse nível quando tive depressão. Minha empresa, a VTQuatro Comunicações, foi à falência e eu tive “síndrome de pânico de sair de casa”. Minha mente me convenceu de que seria julgado e humilhado aonde quer que fosse. Dessa vez quem me salvou foram as orações a Deus, o amor dos meus filhos e a paciência da minha ex-esposa Fabíolla Sampaio. Aprendi que a depressão é uma doença perigosa e que não deve ser menosprezada. Vivo em vigilância constante para que ela não volte, pois ela “vive batendo na porta e perguntando: quer companhia?” (rs).

Assim, pensando nestas “fugas da realidade” me peguei tentando entender alguns fatos contemporâneos, como: Por que movimentos LGBTQIAPN+ cultuam Che Guevara, histórico assassino de gays? Por que movimentos feministas apóiam os terroristas do Hamas ou o sistema teocrático do Irã, que oprimem e matam mulheres só por mostrar os cabelos? Por que professores de história, sociologia, filosofia abraçam ideologias que historicamente não dão certo? Por que grupos defendem que a terra não é redonda? Enfim, por que tantos negam a história e a realidade de fato? Como as pessoas passando fome e sendo assassinadas por regimes claramente ditatoriais.

George Orwell chamou de DUPLIPENSAR a capacidade de sustentar, ao mesmo tempo, duas ideias contraditórias e aceitá-las como verdadeiras. Em 1984, isso não era apenas confusão mental, mas uma técnica de poder: negar fatos evidentes para preservar uma narrativa ideológica. O que Orwell descreveu como ficção hoje opera como mecanismo psicológico cotidiano. Está na Universidade, nos noticiários, no bar, nas redes sociais…

Como explicar que pessoas LGBT defendam figuras ou regimes historicamente hostis à homossexualidade, que feministas relativizem regimes que oprimem e executam mulheres, ou que milhões rejeitem evidências científicas básicas, como a forma da Terra, mesmo diante de provas empíricas abundantes?

A resposta não está na falta de informação — mas na forma como o cérebro humano protege suas crenças.

O psicólogo Leon Festinger, em A Theory of Cognitive Dissonance (1957), mostrou que quando fatos entram em conflito com crenças profundas, surge um desconforto psíquico intenso. Para aliviar essa tensão, as pessoas não abandonam a crença — reinterpretam os fatos.

“Se a realidade contradiz minha identidade, tanto pior para a realidade.”

Negar perseguições históricas, minimizar dados científicos ou acusar as fontes de “manipulação” é psicologicamente mais barato do que admitir: eu estava enganado. Uma comparação simples: é como o sujeito que investiu anos do seu tempo, do seu esforço físico, mental e espiritual para construir uma casa sobre a areia. Ela no fim pode ser linda, mas não tem base sólida. Mesmo não tendo nenhuma outra naquele lugar, o sujeito acredita que todos estão errados e que a casa dele não vai cair.

Para Jonathan Haidt (The Righteous Mind, 2012), o ser humano não raciocina como um juiz imparcial, mas como um advogado de defesa da própria identidade moral. Primeiro escolhemos o “lado”; depois selecionamos os argumentos. Quando uma ideologia se torna parte do “quem eu sou”, qualquer fato contrário é vivido como um ataque pessoal. A verdade deixa de ser algo a ser buscado — passa a ser algo a ser defendido seletivamente.

Hannah Arendt, ao analisar os totalitarismos em Origens do Totalitarismo, observou que ideologias funcionam como sistemas logicamente coerentes que não precisam mais da realidade.

“A força da ideologia está em sua imunidade à experiência.”

Dentro desses sistemas, fatos não refutam a teoria — são reinterpretados como exceções, conspirações e mentiras do inimigo. É assim que dados históricos documentados passam a ser tratados como “propaganda”.

O mundo real é complexo, ambíguo e frustrante. Ideologias oferecem histórias simples, com vilões claros e heróis redentores. Como escreveu Erich Fromm em O Medo à Liberdade (1941), muitos preferem abrir mão da autonomia crítica em troca de pertencimento e segurança psicológica. Negar a realidade, nesse sentido, não é ignorância: é conforto emocional.

O estágio final do duplipensar não é apenas negar fatos — é sentir-se moralmente superior por negá-los. Questionar a narrativa vira “traição”, “reacionarismo” ou “desinformação”. O pensamento crítico passa a ser visto como ameaça. Aqui, Orwell deixa de ser metáfora e vira diagnóstico.

Concluindo, o que vemos hoje, infelizmente em muita gente, é a capacidade de defender direitos humanos enquanto se aplaudem regimes que matam gays e mulheres. De gritar “ciência!” e, ao mesmo tempo, negar fatos históricos e evidências básicas quando elas atrapalham a narrativa. George Orwell chamou isso de duplipensar: acreditar em duas ideias contraditórias e aceitar ambas como verdade — desde que protejam sua ideologia.

A psicologia explica: admitir o erro dói mais do que negar a realidade. A ideologia vira identidade. E a identidade passa a valer mais que a verdade.

Quando isso acontece, fatos deixam de importar. A história vira “opinião”.A ciência vira “instrumento do inimigo”.E negar a realidade não só é permitido —

vira prova de virtude moral.

No fim, a pergunta não é quem está certo. É quanto da verdade você está disposto a destruir para continuar pertencendo a uma bolha, um lado ideológico, sendo “seletivo” no que defende… Você vai continuar agarrado à estaca no fundo do rio esperando a morte chegar? Precisa de alguém que lhe salve? Ou vai largar o que lhe sustenta numa falsa realidade, emergir para uma vida de pensamento plural, onde estamos TODOS no mesmo barco? Pense. Reflita. Questione. Busque a verdade!