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ARTIGO: “Drenagem profunda não dá votos?” – O dilema que afoga Manaus a cada chuva

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Por: Edson Sampaio

Em Manaus, a cena se repete como um roteiro previsível: o céu escurece, a chuva cai com força, ruas se transformam em rios, casas são invadidas pela água e o trânsito entra em colapso. A população sofre, perde bens, adoece e se arrisca.

Enquanto isso, nos bastidores da política local, uma frase ecoa como justificativa silenciosa para a inércia estrutural:


“Drenagem profunda não dá votos.”

Se isso for verdade, estamos diante de uma das mais cruéis constatações da gestão pública contemporânea.


Asfalto bonito, problema enterrado

Obras de recapeamento são frequentemente anunciadas com entusiasmo. Fotos, vídeos, inaugurações, placas e discursos oficiais. O asfalto novo brilha ao sol.

Mas basta a primeira chuva forte para revelar o que está por baixo: a ausência de um sistema eficiente de drenagem profunda.

Não adianta asfaltar se a água não tem para onde escoar.

Sem galerias subterrâneas adequadas para águas pluviais e sem redes estruturadas de esgotamento, a cidade literalmente transborda. A água busca seu próprio caminho — e encontra quintais, comércios, escolas e hospitais.


Depoimentos de quem vive o problema

Maria das Dores Silva, 52 anos, moradora do Bairro da União (Zona Centro-Oeste):

“Toda vez que chove forte, eu já fico nervosa. A água sobe rápido. Já perdi sofá, geladeira, guarda-roupa. A rua foi asfaltada ano passado, ficou linda… mas quando chove parece que piora. A água não escoa. A gente não precisa só de asfalto, precisa de drenagem de verdade.”

Ela relata que, em algumas ocasiões, precisou sair de casa durante a madrugada para se abrigar na residência de parentes.

José Carlos Almeida, 44 anos, morador do Bairro Nossa Senhora de Fátima (Zona Norte):

“Aqui é sempre a mesma história. Promessa de obra, promessa de solução. Mas quando a chuva vem, a rua vira igarapé. Não adianta maquiar. Se não fizerem drenagem profunda, vamos continuar sofrendo todo inverno.”

Além dos prejuízos materiais, ele destaca o medo constante de doenças e acidentes, principalmente envolvendo crianças.


A conta que nunca fecha

A cada alagamento, o prejuízo é coletivo:

  • Perda de móveis e eletrodomésticos
  • Veículos danificados
  • Proliferação de doenças
  • Interrupção do comércio
  • Desvalorização imobiliária
  • Risco de deslizamentos em áreas vulneráveis

Em seguida, surgem as medidas emergenciais: bombas de sucção, limpezas superficiais, ações paliativas. Tudo isso custa dinheiro público — e muito.

Mas investir na base, no que não aparece, parece menos interessante do ponto de vista eleitoral.


Política de superfície

Obras de drenagem profunda ficam enterradas. Não rendem selfies, não aparecem facilmente nas redes sociais, não produzem impacto visual imediato.

Mas são elas que sustentam uma cidade resiliente.

Em uma capital amazônica marcada por chuvas intensas, ignorar o sistema de drenagem não é apenas falha administrativa — é negligência estrutural.

É governar para a próxima eleição, não para a próxima geração.


A cidade que poderia ser

Manaus precisa decidir: quer continuar maquiando problemas ou resolvê-los pela raiz?

Drenagem profunda não aparece — mas salva vidas.
Não gera votos imediatos — mas garante dignidade.
Não rende palanque — mas assegura segurança.

Enquanto isso, moradores da União, da Zona Norte e de tantas outras áreas seguem convivendo com a mesma insegurança a cada nuvem carregada.

E a pergunta permanece:

Até quando Manaus vai continuar afundando no raso das decisões superficiais?