Por Warly Bentes Pontes Jr.
Depois do almoço, SIESTA, um cochilo breve. Esse é um costume dos romanos antigos e refere-se ao descanso na sexta hora do dia depois do amanhecer, para fugir do sol escaldante. Meus pais adotavam essa prática cotidiana e eu também depois da vida adulta. Mas quando criança lá na fazenda Arapapá, era diferente. Criança não dorme. Criança faz estrepulias, rs… Um dia, fiz uma que passou da conta. Nossa casa era de madeira tipo palafita (com esteios altos na base) como a maioria das residências da bacia amazônica por causa da subida e descida sazonal do volume dos rios. Do lado da casa tinha um canal de acesso ao lago. Era época de “vazante” (rio baixo, barranco alto). Na hora da siesta dos meus pais, eu desci para o porto e comecei a brincar de jogar pedra no rio, fui contornando o canal, sempre brincando, sem pressa… Quando cansei voltei pra casa, mas ao invés de subir as escadas da entrada principal, eu resolvi escalar um esteio da varanda da casa e por pura traquinagem me escondi debaixo da cama dos meus pais. E dormi, rs.
Por volta das 14, 15h, acordei com muito barulho, muitas pessoas falando, minha mãe chorando. O que aconteceu? Meus pais acordaram e sentiram a minha falta. Um dos empregados havia me visto, na hora da siesta, indo para o porto, depois ninguém mais me viu. Logo imaginaram que eu estava brincando no rio e tinha me afogado ou que um jacaré (comuns lá no lago) teria me atacado. Meus pais, minha irmã e os empregados passaram um bom tempo me procurando nas redondezas, sem êxito, claro… Gente, eu saí debaixo da cama e me apresentei com a cara mais deslavada na cozinha onde todos estavam. Tomei uma surra dolorida do meu pai nesse dia. E não adiantou eu dizer que estava “tirando a minha siesta”, rs. Não pensei nas consequências práticas e morais dos meus atos, CRIANÇA NÃO PENSA, por isso devem ser monitoradas por adultos. Tomei uns bons “sopapos” mas naquele dia comecei a aprender a IMPORTÂNCIA DE PENSAR.
O castigo físico infligido por país em seus filhos hoje é politicamente incorreto e crime. Mas na minha época éramos “corrigidos” assim. Eu morria de medo do galho de cuieira (uma árvore local cujos galhos são cheios de nódulos); do cinturão do meu pai; da sandália da mamãe e da palmatória da professora. Sim, levávamos palmadas nas mãos se errássemos as lições na escola. E não; não cresci com traumas causados por essas experiências. Muito pelo contrário, sou grato pela educação que recebi. Aprendi a arrumar a casa, a lavar banheiro, a lavar e passar roupa, a cozinhar… Respeitar os mais velhos, cumprimentar educadamente, não se intrometer na conversa alheia, não mentir, não roubar… Valores, princípios, normas de conduta, moralidade e urbanidade… E nunca me envergonhei de dizer em alto e bom som para meus pais: EU TE AMO!
Repliquei esta “forma de educar” com os meus filhos? Naturalmente que sim e cometi o erro de recorrer à correção pela dor. Mas hoje penso totalmente diferente e me arrependo. Há formas melhores, pensamos em maioria, de educar um filho. E ainda tem a questão em que os psicólogos dizem que os pais são um importante foco de traumas que interferem no desenvolvimento emocional dos filhos. E assim temo que os meus precisem de terapia. O fato é que hoje as palmadas não são permitidas.
E assim, pressionado por este embate cultural entre gerações, vendo por exemplo o comportamento dos jovens “Nem-Nem” (nem estudam nem trabalham), pensando na nossa sociedade e no atual momento que vivemos me veio a pergunta incômoda: SERÁ QUE ESTAMOS CRIANDO ADULTOS INFANTILIZADOS? Pessoas fracas, sem regras, sem limites? Adultos que tem preguiça de pensar por conta própria e que terceirizam o próprio discernimento do que é certo ou errado?
Outro dia vi um pensamento que circula nas redes sociais que diz o seguinte: “Tempos difíceis formam homens fortes; homens fortes criam tempos fáceis; tempos fáceis formam homens fracos; homens fracos criam tempos difíceis”. Independentemente da autoria, a ideia provoca. E talvez descreva algo essencial do nosso tempo: o conforto prolongado pode estar produzindo fragilidade intelectual, emocional e espiritual. Pensar, principalmente, exige esforço. E nossa época é alérgica ao esforço.
No contexto das relações sociais, comunicação e política gosto de citar Hannah Arendt, é uma das maiores pensadoras contemporâneas, na minha opinião. Ela alertava que o maior perigo político não era o ódio, mas a ausência de pensamento. Não se trata de falta de informação, mas da recusa em julgar. Hoje, opiniões prontas circulam em velocidade máxima. Julgar exige pausa; compartilhar exige segundos. O indivíduo infantilizado não quer pesar argumentos, quer pertencer a um grupo. Pensar virou desgaste emocional.
Em Assim Falou Zaratustra, Friedrich Nietzsche descreve o “último homem”: alguém que evita riscos, evita profundidade e prefere segurança à grandeza. Ele busca conforto e pequenas satisfações. É difícil não reconhecer traços dessa figura na cultura contemporânea: menos disposição para conflitos intelectuais e mais desejo por entretenimento constante. Refletir profundamente pode desestabilizar certezas. E a estabilidade emocional vale mais que a verdade.
Para Byung-Chul Han, não vivemos mais sob repressão, mas sob excesso de estímulos. Não somos proibidos de pensar, somos distraídos. Décadas antes, Guy Debord já havia descrito a “sociedade do espetáculo”, em que a experiência direta é substituída por representação. Vivemos reagindo a imagens, manchetes e escândalos.A política vira torcida. O debate vira performance. A complexidade vira ameaça. Pensar profundamente não é impossível. É apenas cansativo demais diante de tantas notificações.
Durante o século XX, pesquisadores observaram o chamado Efeito Flynn: geração após geração, os escores médios de QI aumentavam, impulsionados por melhor educação e ambientes mais estimulantes. Nas últimas décadas, porém, essa curva começou a se estabilizar, e em alguns países desenvolvidos até a recuar. Estudos indicam que jovens têm apresentado médias ligeiramente inferiores às de gerações anteriores em certos tipos de raciocínio abstrato.Especialistas atribuem essa reversão a fatores ambientais e culturais: fragmentação da atenção, excesso de telas, redução da leitura profunda e mudanças no modelo educacional. Não significa que a humanidade esteja “emburrecendo”. Mas sugere que os ambientes cognitivos atuais podem não estar favorecendo o desenvolvimento do pensamento complexo. E pensamento complexo exige fricção.
A infantilização não é ausência de informação. É incapacidade ou recusa de elaborar. Nunca tivemos tanto acesso a dados. Mas raramente estivemos tão impacientes com a complexidade destes. Se tempos difíceis exigem maturidade, tempos fáceis podem produzir aversão ao esforço intelectual. E quando uma sociedade começa a considerar o pensamento profundo cansativo demais, alguém sempre se oferece para pensar por ela.
A pergunta não é se tempos difíceis voltarão. É se estaremos maduros o suficiente para enfrentá-los. E você? Já pensou sobre como estamos “educando” nossos filhos?











