EDITORIAL | Moraes manda prender Eduardo Bolsonaro e cancelar passaportes: quem está sob suspeita tem moral para mandar prender?

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Entre contratos milionários envolvendo o escritório da esposa, suspeitas de conflitos de interesses e questionamentos sobre sua imparcialidade, ministro do STF concentra poder enquanto cresce a cobrança por explicações.

Por Manuel Menezes

O Brasil chegou a um ponto preocupante: um ministro do Supremo Tribunal Federal concentra enorme poder para investigar, julgar e determinar prisões, enquanto sua própria atuação é cercada de questionamentos.

A decisão de Alexandre de Moraes contra Eduardo Bolsonaro, envolvendo prisão e cancelamento de passaportes, reacende uma pergunta incômoda: quem fiscaliza aquele que tem o poder de decidir o destino dos outros?

Não se trata de colocar Bolsonaro ou qualquer político acima da lei. Trata-se de exigir que os próprios ministros do STF também sejam submetidos ao rigor das instituições.

Contratos milionários e a moralidade da Justiça

As revelações sobre o contrato de aproximadamente R$ 131 milhões entre o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro, e o Banco Master levantaram questionamentos sobre possíveis conflitos de interesses.

O escritório negou irregularidades. A existência do contrato, por si só, não comprova crime. Entretanto, a sociedade tem o direito de exigir transparência e esclarecimentos.

Como pode alguém exigir confiança irrestrita em suas decisões enquanto sua própria atuação enfrenta questionamentos públicos tão sérios?

A toga não concede superioridade moral, tampouco imunidade à fiscalização.

Juiz, investigador e alvo: onde fica a imparcialidade?

Outra questão envolve a concentração de atribuições nas mãos de Moraes.

O ministro conduz processos relacionados a ataques às instituições e a integrantes do próprio Supremo, circunstância que alimenta críticas sobre os limites entre a condição de possível vítima e a função de julgador.

A Constituição exige imparcialidade, ampla defesa e devido processo legal. Esses princípios devem valer para todos, inclusive para os adversários políticos de quem exerce o poder.

Justiça não pode ser confundida com vontade pessoal, muito menos com demonstração de autoridade.

Mandar prender não resolve uma crise de credibilidade

A determinação contra Eduardo Bolsonaro amplia o debate sobre os limites do poder judicial.

Nenhuma autoridade deve ser condenada antecipadamente por suspeitas, mas também nenhuma pode se considerar intocável diante de questionamentos fundamentados.

O problema não está apenas nas decisões de Moraes. Está na percepção de que o mesmo sistema que exige explicações dos cidadãos nem sempre demonstra igual disposição para esclarecer as controvérsias envolvendo seus integrantes.

O Brasil não precisa de ministros intocáveis. Precisa de uma Justiça que inspire respeito pela imparcialidade, não pelo medo de suas decisões.

E a pergunta permanece:

Se a Justiça exige moralidade, transparência e responsabilidade de todos, por que seus próprios integrantes não deveriam ser os primeiros a dar o exemplo?

Editorial de opinião — Por Manuel Menezes. Suspeitas e questionamentos mencionados não representam comprovação de irregularidades ou crimes.

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