Por Manuel Menezes
A morte de uma criança é uma tragédia que merece Justiça, verdade e respeito à família. É exatamente por isso que sua utilização no momento mais quente de uma campanha presidencial exige cuidado redobrado.
Nesta semana, a atriz Camila Pitanga apareceu como apresentadora de “O Julgamento que Nunca Aconteceu”, episódio do projeto Revelando sobre a morte de Ana Clara Gomes Machado, de apenas 5 anos. O documentário coloca no centro da narrativa a participação de Flávio Bolsonaro, hoje candidato à Presidência, na defesa do policial Bruno Dias Delaroli, acusado pelo Ministério Público de envolvimento na morte da menina.
Esse é um fato e não deve ser escondido. Flávio integrou a defesa do acusado. Mas existe outro fato igualmente relevante para compreender o momento em que o vídeo aparece: a campanha de Lula decidiu levar o caso para sua propaganda eleitoral justamente nos últimos dias antes do primeiro turno.
É nesse ponto que a discussão deixa de ser apenas sobre um documentário e passa a envolver comunicação política.
Uma coisa é investigar a morte de Ana Clara, cobrar o julgamento e questionar a atuação dos advogados envolvidos. Outra é transformar uma tragédia ocorrida em 2021 em uma das principais armas de comunicação de uma campanha presidencial em 2026.
O vídeo apresentado por Camila Pitanga pergunta por que Flávio Bolsonaro decidiu defender o policial. A pergunta é legítima. Mas também é legítimo perguntar por que esse episódio ganhou tamanho espaço exatamente agora, a poucos dias das urnas, e acabou incorporado à estratégia eleitoral do principal adversário de Flávio.
Há ainda uma distinção jurídica que não pode desaparecer no calor eleitoral: advogado não se confunde com cliente. O direito de defesa e o contraditório existem inclusive nos processos envolvendo crimes gravíssimos. A atuação profissional de um advogado pode e deve ser escrutinada quando houver interesse público, mas defender alguém acusado de um crime não significa compartilhar ou aprovar o ato atribuído ao acusado.
Da mesma forma, isso não impede que Flávio Bolsonaro seja questionado sobre por que, já exercendo mandato de senador, decidiu integrar especificamente aquela defesa. Esse é um questionamento jornalístico legítimo.
O problema surge quando fatos juridicamente complexos são comprimidos em frases de propaganda capazes de produzir uma associação emocional imediata entre o advogado e o crime atribuído ao cliente.
A campanha de Lula chegou a preparar uma peça perguntando ao eleitor se alguém que defendeu o acusado poderia “defender” a população. Trata-se claramente de uma construção eleitoral destinada a associar politicamente Flávio ao crime investigado.
Camila Pitanga tem todo o direito de participar de documentários, manifestar suas posições e questionar qualquer candidato. Celebridade não perde liberdade política por ser celebridade.
Mas exatamente porque sua imagem possui enorme alcance, também está sujeita ao escrutínio público sobre o contexto, a narrativa e o momento eleitoral em que esse conteúdo é apresentado.
O que não encontrei, após pesquisar o episódio, foi prova de que Lula ou sua campanha tenham pago Camila Pitanga pela participação no documentário. Portanto, fazer essa afirmação como fato iria além do que as informações disponíveis permitem sustentar.
O que está comprovado já é suficientemente relevante para o debate: Camila apresentou um documentário fortemente crítico a Flávio Bolsonaro; o caso ganhou enorme repercussão às vésperas da eleição; e a campanha de Lula decidiu explorar eleitoralmente a mesma história contra seu adversário.
Num ambiente eleitoral tão polarizado, cabe separar investigação, ativismo, produção audiovisual e propaganda partidária. E, sobretudo, impedir que a legítima busca por Justiça para uma criança seja reduzida a uma simples peça na disputa pelo Palácio do Planalto.
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