Redação MVE
Manaus – A tentativa do governador Roberto Cidade (União Brasil) de estabelecer distância política em relação ao ex-governador Wilson Lima (União Brasil) ganhou destaque na reta final da eleição para o Governo do Amazonas. Durante debate da TV A Crítica, ao ser questionado por David Almeida sobre problemas atribuídos à administração anterior, Cidade respondeu: “Eu respondo pelo meu CPF, pela minha história de vida”.
A declaração procura estabelecer uma separação entre as responsabilidades administrativas dos dois governos. Politicamente, porém, Cidade e Wilson construíram uma relação pública de aliança durante os últimos anos — inclusive durante a preparação das eleições de 2026.
Meses atrás, discurso era de continuidade
Em julho, quando Roberto Cidade lançou sua pré-candidatura à reeleição, Wilson Lima participou diretamente do evento e defendeu publicamente a continuidade do grupo político. Na ocasião, Wilson pediu apoio a Cidade, enquanto o governador manifestou apoio à candidatura do ex-governador ao Senado.
A relação também apareceu na organização eleitoral. União Progressista, Podemos e PSB realizaram convenção conjunta para oficializar as candidaturas de Roberto Cidade ao governo e Wilson Lima ao Senado. Na ocasião, Cidade descreveu o projeto político como construído coletivamente e falou em continuidade das ações administrativas.
Os dois, portanto, chegaram à campanha de 2026 dentro do mesmo agrupamento político.
Cidade assumiu governo depois da saída de Wilson
Roberto Cidade chegou ao Governo do Amazonas após as renúncias de Wilson Lima e do então vice-governador Tadeu de Souza, em abril, para disputarem as eleições de 2026.
Na condição de presidente da Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam), Cidade assumiu inicialmente de forma interina e posteriormente foi eleito governador indiretamente pela Assembleia, recebendo os votos dos 24 deputados estaduais.
A ligação política entre Cidade e Wilson, entretanto, antecede a sucessão no Palácio do Governo.
Em janeiro de 2023, Wilson apoiou publicamente a permanência de Cidade na presidência da Aleam. Já durante as eleições municipais de 2024, Wilson apoiou a pré-candidatura de Cidade à Prefeitura de Manaus.
Empréstimos também entram no debate
Outro ponto explorado pelos adversários envolve a passagem de Cidade pela presidência da Aleam durante o governo Wilson Lima.
Durante o segundo mandato de Wilson, a Assembleia analisou sucessivos pedidos de operações de crédito encaminhados pelo Executivo. Cidade comandava o Legislativo durante praticamente todo aquele período.
Isso não significa que Cidade seja pessoalmente responsável por todas as decisões administrativas do governo Wilson, mas ajuda a explicar por que seus adversários procuram associar politicamente as duas gestões.
Já como governador, Cidade também passou a defender uma operação de crédito de R$ 1,462 bilhão junto ao Banco do Brasil, tema que provocou disputa judicial nesta reta final da campanha.
“Cada um com seu CPF”
A frase utilizada por Roberto Cidade no debate estabelece uma distinção juridicamente simples: cada agente público responde por seus próprios atos.
No campo político, entretanto, o histórico documentado mostra que Cidade e Wilson integraram o mesmo grupo, trocaram apoios públicos e chegaram às eleições de 2026 defendendo candidaturas dentro da mesma aliança.
A discussão ganhou ainda mais relevância na reta final porque Roberto Cidade tenta conquistar um mandato próprio nas urnas depois de chegar ao governo por eleição indireta da Aleam.
Pesquisa Quaest divulgada em 24 de setembro registrou Omar Aziz com 29%, Maria do Carmo com 19% e Roberto Cidade com 18%. Pela margem de erro de três pontos percentuais, Maria e Cidade estavam tecnicamente empatados. O levantamento ouviu 804 eleitores entre 20 e 23 de setembro.
Assim, a declaração “cada um com seu CPF” abre uma discussão que vai além das responsabilidades individuais: até que ponto Roberto Cidade representa uma administração politicamente independente e até que ponto sua candidatura dá continuidade ao grupo construído com Wilson Lima?
Os registros dos últimos anos mostram a existência da aliança. A avaliação sobre o peso político dessa relação cabe ao eleitor.
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