Por Manuel Menezes
Luiz Inácio Lula da Silva decidiu não participar do debate da TV Globo desta quinta-feira (1º), o último antes do primeiro turno. No mesmo dia, o presidente participará de uma entrevista ao Flow Podcast, marcada para começar às 20h45, pouco antes do horário previsto para o debate.
A pergunta que fica é inevitável: por que um presidente que pede mais quatro anos ao eleitor prefere uma entrevista individual justamente na noite em que poderia defender seu governo frente a frente com seus adversários?
Não existe obrigação legal que force Lula a comparecer. Mas existe uma diferença enorme entre aquilo que é obrigatório e aquilo que se espera politicamente de alguém que pretende continuar comandando o Brasil.
Debate é justamente para ser desconfortável
Segundo o Poder360, integrantes da campanha avaliaram que Lula poderia se tornar o principal alvo dos candidatos presentes. O presidente do PT, Edinho Silva, também criticou o formato e defendeu a possibilidade de Lula participar de um eventual confronto no segundo turno.
Mas desde quando ser questionado pelos adversários é motivo para evitar um debate?
Quem ocupa a Presidência naturalmente tem um governo inteiro para defender. Economia, segurança, saúde, gastos públicos, corrupção, relações internacionais e decisões tomadas durante o mandato são temas que podem — e devem — ser confrontados numa campanha.
Se as críticas dos adversários forem falsas ou injustas, Lula teria diante das câmeras a oportunidade de desmontá-las.
Se forem verdadeiras, o eleitor merece ouvir sua resposta.
O debate não existe para proporcionar conforto aos candidatos. Existe para submetê-los ao contraditório.
Flow não substitui confronto entre candidatos
Lula tem todo o direito de participar do Flow. Podcasts se transformaram em espaços importantes do debate público brasileiro e alcançam milhões de pessoas.
Mas uma entrevista não substitui um debate.
No Flow, Lula responderá aos apresentadores. Na Globo, teria candidatos diante dele preparados para contestar suas declarações, cobrar explicações, apresentar contrapontos e questionar diretamente o governo que ele comanda.
Essa diferença é fundamental.
O presidente não estará em silêncio na noite desta quinta-feira. Ele simplesmente escolheu falar em um ambiente diferente daquele em que seus adversários poderiam confrontá-lo diretamente.
Lula termina o primeiro turno sem debate
A ausência também precisa ser observada dentro de um contexto maior.
Lula já havia faltado ao debate da Band realizado em agosto. Flávio Bolsonaro também não compareceu àquele encontro. Agora, no debate da Globo, Flávio confirmou presença, enquanto Lula decidiu ficar de fora.
Com isso, Lula chega ao final do primeiro turno sem participar de um debate presidencial frente a frente com seus concorrentes.
E isso, para mim, merece uma cobrança firme.
Um candidato à Presidência pode escolher sua estratégia eleitoral. Mas o eleitor também pode questionar essa estratégia — principalmente quando estamos falando do atual presidente da República.
Quem governa precisa estar disposto a responder
Lula frequentemente apresenta a defesa da democracia como uma das marcas de seu discurso político. Mas democracia não pode significar apenas falar quando o ambiente é favorável.
Democracia também significa ouvir críticas, responder perguntas difíceis e aceitar o contraditório.
E isso vale para Lula, Flávio Bolsonaro e qualquer outro candidato.
Na reta final de uma eleição presidencial, o debate oferece uma oportunidade rara: colocar lado a lado aqueles que pretendem governar mais de 200 milhões de brasileiros.
Lula escolheu não estar lá.
A ausência também diz alguma coisa
O brasileiro terá de decidir sozinho que peso dará a essa decisão.
Mas, como jornalista e cidadão, considero legítimo perguntar: se Lula acredita nos resultados de seu governo e nas propostas que apresenta para mais quatro anos, por que não defendê-los diante dos adversários no principal debate televisivo da reta final?
É fácil discursar quando ninguém do outro lado possui direito imediato de réplica. Mais difícil é ouvir uma acusação, responder, ser contestado e precisar sustentar a própria versão diante de milhões de pessoas.
É exatamente para isso que existem os debates.
Nesta quinta-feira, Lula terá microfone, câmera e audiência.
O que não terá diante de si serão os adversários.
E quando um presidente que busca a reeleição escolhe uma entrevista individual em vez do último confronto entre candidatos antes da votação, a pergunta do título permanece pertinente:
Lula foge do confronto?
A resposta cabe ao eleitor.
Descubra mais sobre MenezesVirtualEye
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.











