Mensagens põem negativa de Zanin em xeque e expõem lobby do Master nos bastidores do STF

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Diálogos extraídos pela Polícia Federal mostram Chiquinho Feitosa articulando reunião para Daniel Vorcaro e afirmando ter discutido assuntos de interesse do banqueiro durante jantar com Zanin e Gilmar Mendes

Redação MVE

Duas conversas encontradas pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, aumentam a pressão sobre o ministro Cristiano Zanin e expõem o nível de acesso que o lobista Francisco Feitosa de Albuquerque Lima, conhecido como Chiquinho Feitosa, dizia possuir dentro do Supremo Tribunal Federal.

As mensagens mostram dois momentos distintos. No primeiro, Feitosa participa da articulação de uma reunião entre Vorcaro e o gabinete do ministro Gilmar Mendes. No segundo, afirma diretamente ao banqueiro que estava jantando com Gilmar, Zanin e as respectivas esposas, ocasião em que teria conversado sobre “assuntos de nosso interesse”.

Zanin nega categoricamente que tenha participado do jantar ou mantido qualquer contato com Feitosa e Vorcaro. A declaração do ministro, entretanto, entra em choque com a mensagem enviada pelo lobista no momento em que o suposto encontro estaria acontecendo.

Lobista articulou reunião no STF

A primeira conversa é de 11 de abril de 2024. Chiquinho Feitosa encaminhou a Vorcaro o contato de uma pessoa identificada como “Carla Gilmar”, aparentemente ligada ao gabinete do ministro.

Na sequência, aparece um roteiro para a audiência. Vorcaro deveria conversar inicialmente sozinho com o ministro, das 18h às 18h30. Depois, entrariam na reunião André Krutchevsky, então diretor jurídico do Banco Master, e Bruno Bianco, ex-advogado-geral da União que atuava juridicamente em assuntos de interesse do grupo.

O diálogo também registra ligações e cobranças para que Vorcaro entrasse em contato. Gilmar Mendes confirmou posteriormente que recebeu o banqueiro e advogados do Master em seu gabinete, embora tenha negado favorecimento e afirmado que seus votos foram contrários aos interesses financeiros do banco.

A captura demonstra que Feitosa não era apenas alguém fazendo comentários distantes sobre o Supremo. Ele encaminhava contatos, discutia horários e acompanhava diretamente a preparação de reuniões envolvendo Vorcaro, ministros e representantes jurídicos do Banco Master.

Dias depois, o lobista aconselhou o banqueiro a construir uma “relação direta” com Gilmar Mendes, afirmando que essa aproximação seria importante para o futuro.

Mensagem cita jantar com Zanin

A segunda conversa é ainda mais delicada. Em 28 de maio de 2024, às 20h55, Chiquinho Feitosa informou a Vorcaro que estava jantando com Cristiano Zanin, Gilmar Mendes e as esposas dos ministros.

“Querido amigo, estou aqui jantando com Gilmar, Zanin e as esposas. Conversei alguns assuntos de nosso interesse”, escreveu o lobista.

Feitosa acrescentou que havia repassado informações recebidas de uma pessoa chamada Fernando e perguntou se Vorcaro estaria na cidade. O banqueiro respondeu em três mensagens: “Ótimo”, “Vou estar” e “Vamos nos ver amanhã”.

O diálogo sugere que Vorcaro compreendeu perfeitamente a referência aos “assuntos de nosso interesse” e pretendia encontrar Feitosa no dia seguinte.

A mensagem não comprova, sozinha, que Zanin tenha praticado qualquer irregularidade ou tomado decisões em favor do Banco Master. Mas ela apresenta uma versão incompatível com a negativa absoluta divulgada pelo ministro.

Zanin nega encontro e qualquer conversa

Zanin declarou que nunca teve relação com Daniel Vorcaro ou Chiquinho Feitosa. O ministro também afirmou que nunca jantou, recebeu em audiência ou conversou com os dois sobre qualquer assunto.

O problema para Zanin é que sua negativa não discute apenas o conteúdo da conversa. O ministro afirma que o encontro simplesmente não aconteceu, enquanto Feitosa escreveu a Vorcaro, em tempo real, que estava sentado à mesa com ele.

Procurado, Chiquinho Feitosa não negou o encontro com a mesma firmeza. Disse que não se recordava “com precisão” do jantar e que, se esteve na presença dos ministros, teria sido em uma ocasião social, com outros convidados. Também afirmou que não tratou de temas de interesse do banqueiro.

A resposta é contraditória com o diálogo. Na mensagem de 2024, Feitosa não demonstrava dúvida sobre onde estava, com quem estava ou sobre os assuntos que dizia ter abordado.

Pagamentos de R$ 500 mil mensais

A situação torna-se mais grave porque Feitosa recebia pagamentos mensais de aproximadamente R$ 500 mil por meio de uma empresa ligada a Vorcaro. As conversas indicam que ele prestava assessoria em assuntos relacionados a precatórios e universidades privadas, temas que chegavam aos tribunais superiores.

O Banco Master havia adquirido créditos relacionados a precatórios e possuía interesse financeiro no resultado de disputas judiciais. Feitosa atuava como intermediário, transmitindo informações e facilitando aproximações.

Ele também é irmão de Guiomar Feitosa, ex-mulher de Gilmar Mendes. Essa ligação familiar aumentava seu valor como possível canal de acesso ao ministro.

Seria precipitado concluir que tudo o que o lobista dizia a Vorcaro era verdadeiro. Feitosa poderia exagerar sua influência para justificar os pagamentos que recebia. Mas essa possibilidade também precisa ser investigada, e não utilizada para encerrar o assunto.

Ministro recebeu os dados do celular de Vorcaro

Em setembro de 2026, Zanin solicitou e recebeu uma cópia integral do conteúdo extraído do celular de Vorcaro. O mesmo material foi entregue aos gabinetes de Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes.

Assim, ministros citados direta ou indiretamente nas conversas passaram a ter acesso ao conjunto completo de dados que alimenta a investigação e a crise institucional dentro do próprio STF.

Poucos dias depois, Zanin negou uma liminar apresentada pelo senador Alessandro Vieira para obrigar o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, a instalar uma CPI destinada a investigar as relações de integrantes do Supremo com Vorcaro.

O ministro alegou que não estava comprovada uma omissão inconstitucional do presidente do Senado. A decisão não impede que a CPI seja instalada politicamente, mas mantém a investigação parlamentar paralisada.

Nota não basta para encerrar o caso

Zanin ainda não é formalmente acusado de favorecer o Banco Master. As mensagens também não provam que o ministro tenha negociado decisões ou recebido qualquer vantagem.

Mas o contraste entre a versão do lobista e a negativa do ministro precisa ser esclarecido por elementos objetivos. Registros de localização dos celulares, agendas, imagens, reservas, motoristas, listas de convidados e depoimentos poderiam demonstrar quem estava presente no jantar de 28 de maio de 2024.

O próprio Zanin deveria divulgar onde estava naquela noite e apresentar informações capazes de sustentar sua negativa.

Quando um lobista pago por interesses associados a um banco investigado afirma ter discutido esses interesses durante um jantar com ministros do Supremo, não basta responder com uma nota de poucas linhas.

O STF não pode exigir transparência de toda a sociedade enquanto suas próprias relações permanecem protegidas pela informalidade, pelo sigilo e por negativas impossíveis de serem fiscalizadas. O caso precisa ser investigado até que se saiba se Feitosa mentiu para Vorcaro ou se Zanin está omitindo um encontro que efetivamente aconteceu.