Por Manuel Menezes
A prisão de três policiais militares e de uma mulher com aproximadamente 50 quilos de drogas, armas, munições, veículos, coletes e balaclavas, nas proximidades do Porto de Manaus, ganhou uma dimensão política que o ex-governador Wilson Lima (União Brasil) precisa explicar ao Amazonas.
Entre os presos está o policial militar Geovane da Silva Cruz. Documentos oficiais mostram que ele não era apenas mais um integrante da Polícia Militar: durante o governo Wilson Lima, Geovane esteve lotado na estrutura responsável pela segurança pessoal e participou de missão destinada à “segurança e acompanhamento” do então governador.
A prisão ocorreu nesta terça-feira (22), durante uma operação da Divisão de Repressão ao Crime Organizado (DRCO), da Polícia Civil do Amazonas. Segundo as informações divulgadas sobre a ocorrência, o grupo é suspeito de praticar o chamado “arrocho”, expressão utilizada para descrever a extorsão ou o roubo de drogas de traficantes. Os quatro foram autuados por tráfico de drogas, associação criminosa e crimes relacionados à posse de armas e munições.
Os outros policiais citados nas reportagens são Reginaldo Costa Maciel e Kelliton Bispo da Silva. A investigação deverá esclarecer a participação atribuída a cada um, a origem das drogas e das armas e há quanto tempo o grupo supostamente atuava.
Documento confirma missão ao lado de Wilson Lima
O PDF obtido pela reportagem contém uma página do Diário Oficial do Estado do Amazonas de 3 de março de 2022. Nela consta a Resenha da Portaria nº 012-DAF/CM-2022, assinada pelo então secretário-chefe da Casa Militar, coronel Fabiano Machado Bó.
O documento relaciona Geovane da Silva Cruz entre os servidores que viajaram de Manaus para Itacoatiara entre os dias 1º e 3 de fevereiro de 2022. O objetivo oficial da missão foi descrito da seguinte forma:
“Segurança e acompanhamento ao Exmo. Sr. Governador do Estado na entrega do Cartão de Auxílio e inauguração do CICC local.”
Na época, o governador era Wilson Lima. Portanto, não se trata apenas de uma informação de bastidor ou de uma alegação política: existe um ato oficial da própria Casa Militar colocando Geovane em uma equipe encarregada da segurança e do acompanhamento do então chefe do Executivo estadual.
DOCUMENTO OFICIAL
O registro envolvendo Geovane da Silva Cruz está na página do Diário Oficial de 3 de março de 2022, na Resenha da Portaria nº 012-DAF/CM-2022.
Portal da Transparência revela função ainda mais sensível
A apuração encontrou uma informação ainda mais grave. Na relação de funcionários da Casa Militar referente a junho de 2025, o Portal da Transparência do Governo do Amazonas apresenta Geovane da Silva Cruz lotado na Gerência de Operações de Segurança Pessoal, exercendo a função de gerente.
O registro aponta que o policial estava vinculado à Casa Militar desde 2 de janeiro de 2019, justamente no início do primeiro mandato de Wilson Lima. A mesma lotação já aparecia em documentos de 2023 e 2024.
Isso significa que o vínculo não se limitou a uma viagem isolada. Os dados públicos mostram que Geovane permaneceu durante anos em um setor estratégico, relacionado à proteção de autoridades e às operações de segurança pessoal do governo.
A existência desse vínculo não prova que Wilson Lima tivesse conhecimento de qualquer suposta atividade criminosa do policial. Também não permite atribuir ao ex-governador participação nos crimes investigados. Mas impõe uma responsabilidade política incontornável: explicar como eram escolhidos, fiscalizados e avaliados os agentes colocados em funções tão sensíveis.
Wilson Lima precisa explicar

Wilson Lima comandou o Amazonas entre janeiro de 2019 e abril de 2026. Durante esse período, Geovane aparece nos registros da Casa Militar em missão de acompanhamento do governador e, posteriormente, como gerente de operações de segurança pessoal.
Diante da prisão, algumas perguntas precisam ser respondidas:
- Por quanto tempo Geovane trabalhou diretamente na estrutura de segurança do governador?
- Quem autorizou sua nomeação para a função de gerente?
- O policial possuía acesso a informações reservadas, rotas, veículos, armas ou operações da Casa Militar?
- Existiam denúncias, procedimentos disciplinares ou informações anteriores envolvendo sua conduta?
- Quando ele deixou a Casa Militar e por qual motivo?
- A estrutura de segurança pessoal do governo será investigada para verificar a possível participação de outros agentes?
Não basta tratar o episódio como um simples desvio individual. Quando um policial colocado em uma área estratégica do governo é preso em uma ocorrência envolvendo dezenas de quilos de drogas, armas, munições e suspeita de extorsão de traficantes, o poder público tem obrigação de prestar contas.
Um caso que atinge o coração do antigo governo
Wilson Lima construiu parte de seu discurso político prometendo modernização da segurança pública e enfrentamento ao crime organizado. Agora, um agente que integrou sua estrutura de segurança pessoal aparece entre os presos em uma das ocorrências policiais mais graves dos últimos dias.
O caso expõe uma possível falha profunda nos mecanismos de seleção, controle e inteligência da Casa Militar durante sua administração. Se um servidor lotado durante anos em um setor tão próximo ao governador estava supostamente envolvido com “arrocho” de drogas, é necessário saber o que os órgãos de controle interno faziam e por que nenhuma irregularidade teria sido detectada anteriormente.
A proximidade funcional documentada não pode ser apagada por conveniência eleitoral. Wilson Lima, atualmente candidato ao Senado, deve uma explicação direta à população, especialmente porque deixou o governo em abril de 2026 para disputar outro cargo.
O Amazonas precisa saber se houve falha de fiscalização, omissão administrativa ou ausência de controle sobre pessoas que trabalhavam no núcleo da segurança governamental.
Investigação deve avançar sem proteção política
Os policiais presos têm direito à defesa e devem ser considerados inocentes até eventual condenação definitiva. Caberá à Polícia Civil, ao Ministério Público e ao Poder Judiciário determinar as responsabilidades criminais de cada investigado.
Entretanto, a presunção de inocência não impede a cobrança política e administrativa. O episódio envolve servidores armados, drogas, munições e um policial oficialmente ligado à segurança pessoal do ex-governador. Por isso, as investigações precisam avançar sem interferência, proteção corporativa ou blindagem política.
A Polícia Militar e a Casa Militar também devem informar quais providências administrativas foram adotadas, se os policiais foram afastados e se haverá investigação sobre o período em que Geovane ocupou funções na segurança governamental.
Até que essas respostas sejam apresentadas, o caso continuará projetando uma sombra grave sobre a administração de Wilson Lima. Quem pretende representar o Amazonas no Senado não pode fugir de esclarecimentos sobre o que aconteceu dentro de uma das áreas mais sensíveis de seu próprio governo.
Assista ao momento da prisão
As imagens registram a ação policial que terminou com a prisão dos suspeitos. O vídeo deve ser analisado em conjunto com os documentos oficiais e com as informações da investigação, respeitando o direito de defesa dos envolvidos.
O espaço permanece aberto para manifestações de Wilson Lima, da Casa Militar, da Polícia Militar e das defesas dos policiais citados.











