Roberto Cidade usa prisão de terceiro para atacar Maria do Carmo e foge do debate sobre a própria gestão

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Governador tratou como fato um vínculo contestado pela adversária, explorou investigação criminal no confronto eleitoral e apresentou dados públicos da segurança como patrimônio pessoal de sua campanha

Por Manuel Menezes

O governador Roberto Cidade (União Progressista) escolheu um caminho perigoso durante o debate da TV Norte: em vez de explicar com profundidade os problemas da segurança pública do Amazonas e apresentar soluções para a população, utilizou a prisão de um terceiro para tentar atingir politicamente Maria do Carmo Seffair (PL).

Ao questionar a candidata, Cidade afirmou que o “coordenador de campanha” dela havia sido preso com drogas e material eleitoral. A reportagem que repercutiu o confronto, entretanto, descreve o investigado como um homem que se apresentava nas redes sociais como coordenador da campanha. Essa diferença é fundamental e não pode ser apagada pela conveniência eleitoral.

Maria do Carmo negou vínculo com Rodrigo Soares e sua defesa sustentou que não existiria elemento formal comprovando que ele integrasse a coordenação da campanha. A prisão preventiva e a apreensão de aproximadamente 2,5 toneladas de entorpecentes são fatos graves e precisam ser rigorosamente investigados, mas não autorizam responsabilizar automaticamente outra pessoa por eventual crime cometido por um apoiador, simpatizante ou indivíduo que se declarava coordenador.

Cidade tenta transformar suspeita em condenação política

Roberto Cidade não apresentou, durante o confronto, documento de nomeação, contrato, registro eleitoral ou qualquer prova formal de que o investigado exercia o cargo atribuído a ele. Mesmo assim, usou a expressão “seu coordenador de campanha” como se essa relação já estivesse definitivamente comprovada.

É uma estratégia eleitoral evidente: aproximar a imagem da adversária de um crime gravíssimo sem demonstrar que ela participou, tinha conhecimento ou recebeu qualquer benefício proveniente da atividade investigada.

Fiscalizar as relações políticas de todos os candidatos é legítimo e necessário. O que não é aceitável é um governador utilizar a força de uma operação policial para produzir uma condenação por associação no palanque eleitoral.

Se Cidade possui provas de participação da candidata em algum crime, deve encaminhá-las às autoridades competentes. Se não possui, precisa reconhecer que está explorando uma investigação em andamento para obter vantagem política.

Trabalho da polícia não pertence ao governador

Cidade também apresentou apreensões de drogas e a formação de novos policiais como conquistas pessoais. Disse que foram apreendidas 34 toneladas de entorpecentes desde que assumiu o governo e anunciou a incorporação de 500 soldados.

As forças de segurança, porém, pertencem ao Estado e à população — não ao candidato Roberto Cidade. O trabalho de policiais civis, militares, peritos e servidores não pode ser apropriado como se fosse patrimônio eleitoral do ocupante temporário do governo.

Governar não é aparecer depois da operação para transformar o resultado do trabalho policial em propaganda. Governar é garantir efetivo suficiente, delegacias funcionando, investigação, inteligência, equipamentos, valorização profissional e atendimento também aos municípios do interior.

“Quinto estado mais seguro” exige explicação

Outro ponto que merece cautela é a afirmação de que o Amazonas teria se tornado o quinto estado mais seguro do Brasil.

A colocação mencionada surgiu no pilar de Segurança Pública do Ranking de Competitividade dos Estados de 2026, elaborado pelo Centro de Liderança Pública. Trata-se de um índice composto por diferentes indicadores, e não de uma declaração simples de que a população amazonense vive no quinto estado com menor criminalidade do país.

Apresentar essa classificação sem explicar sua metodologia permite construir uma propaganda mais favorável do que a realidade percebida por moradores que ainda convivem com roubos, furtos, tráfico, domínio de facções e insegurança em Manaus e no interior.

Os números positivos devem ser reconhecidos, mas também precisam ser confrontados com os problemas que continuam sem resposta. Segurança pública não pode ser avaliada apenas pelos indicadores escolhidos pelo governo durante uma campanha eleitoral.

Ataque não substitui prestação de contas

A prisão de Rodrigo Soares deve ser investigada até o fim, com direito de defesa, respeito ao devido processo legal e responsabilização de todos os envolvidos, caso os crimes sejam comprovados.

Maria do Carmo também deve explicar publicamente qual relação política manteve com o investigado e por que ele aparecia nas redes sociais reivindicando posição em sua campanha. Transparência vale para todos.

Nada disso, contudo, livra Roberto Cidade da obrigação de prestar contas de sua própria administração. O governador tentou colocar a adversária no banco dos réus, mas não respondeu às cobranças sobre as responsabilidades do grupo político que governa o Amazonas.

No primeiro debate televisionado da campanha, promovido pela Band Amazonas, Cidade não compareceu. Sua participação na TV Norte foi apontada como a primeira dele em um confronto eleitoral na televisão nesta disputa.

Quando finalmente apareceu, preferiu investir em acusações pessoais e explorar a prisão de um terceiro. O Amazonas, entretanto, precisa conhecer propostas, metas, orçamento e compromissos concretos.

Roberto Cidade pode atacar seus adversários, comemorar operações policiais e repetir rankings favoráveis. O que não pode é esconder atrás do espetáculo eleitoral a obrigação de explicar o que efetivamente fez, o que deixou de fazer e por que a população deveria confiar mais uma vez no mesmo grupo que já controla a máquina estadual.