Flávio chama Lula de “pai do Tigrinho” e cobra responsabilidade por dívidas das famílias

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Candidato do PL afirma que governo permitiu avanço dos cassinos on-line e agora tenta apresentar restrições como solução; regulamentação sancionada por Lula incluiu jogos virtuais no mercado das apostas de quota fixa

Por Manuel Menezes

O candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) colocou o dedo em uma das maiores feridas sociais do Brasil ao responsabilizar o governo Lula pelo avanço dos cassinos on-line e pelo endividamento de milhares de famílias.

Durante transmissão ao vivo nesta quarta-feira (23), Flávio chamou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de “pai do Tigrinho”, em referência ao popular jogo de cassino virtual que se espalhou pelo país nos últimos anos.

A declaração foi dada em uma live que reuniu o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas; o prefeito da capital paulista, Ricardo Nunes; e os candidatos ao Senado Guilherme Derrite e André do Prado.

“O Lula fez dois males: o Lulinha e o Tigrinho. Dois filhos dele. E é o Tigrinho que está deixando todo mundo endividado”, declarou Flávio.

O candidato também acusou o governo de não ter combatido nem fiscalizado adequadamente o setor enquanto as plataformas de apostas se multiplicavam e alcançavam principalmente trabalhadores, jovens e famílias de baixa renda.

Flávio aponta responsabilidade do governo

A crítica de Flávio é politicamente dura, mas atinge um ponto que o próprio governo passou a reconhecer: os cassinos virtuais se transformaram em um problema social, econômico e de saúde pública.

Segundo o candidato, existe uma diferença entre modalidades de apostas que permitem maior fiscalização e os jogos virtuais baseados em algoritmos, disponíveis durante 24 horas e acessíveis diretamente pelo celular.

Flávio afirmou ser contrário à liberação dos jogos e disse que votou contra propostas relacionadas ao setor no Congresso. Também acusou a bancada do PT de apoiar a medida que permitiu a expansão das apostas virtuais.

“O problema é o cassino on-line, que esse governo liberou. No governo Bolsonaro, fomos contra. Votei contra a liberação dos jogos no Congresso. A bancada do PT inteira votou a favor”, afirmou.

A responsabilidade histórica pela situação não começou exclusivamente no atual governo. As apostas esportivas de quota fixa foram legalizadas em 2018, durante a gestão de Michel Temer. A lei estabeleceu um prazo de quatro anos para a regulamentação, que terminou em dezembro de 2022 sem que o governo de Jair Bolsonaro concluísse o processo.

Entretanto, foi a Lei nº 14.790, sancionada por Lula em 2023, que incluiu formalmente os jogos on-line na categoria das apostas de quota fixa e atribuiu ao Ministério da Fazenda a autorização e a fiscalização das empresas.

É nesse ponto que a cobrança de Flávio ganha força: o governo Lula não apenas recebeu um mercado já existente. A atual administração estabeleceu o marco regulatório que incorporou os cassinos virtuais ao setor autorizado e passou a arrecadar impostos com a atividade.

Governo arrecadou enquanto famílias se endividavam

O crescimento das apostas trouxe uma receita bilionária para o governo federal. Somente entre janeiro e maio de 2026, o setor recolheu R$ 5,89 bilhões em impostos, um crescimento de 85,9% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Enquanto a arrecadação aumentava, também cresciam as denúncias sobre dependência, comprometimento da renda familiar e utilização de recursos de programas sociais nas plataformas.

O governo chegou a restringir a publicidade das casas de apostas e bloquear o acesso de beneficiários do Bolsa Família e do Benefício de Prestação Continuada aos sites do setor. As medidas, porém, vieram depois de o problema já ter alcançado milhões de brasileiros.

O próprio ministro da Saúde reconheceu que as apostas passaram a ser tratadas como um problema de saúde pública e que a regulamentação e a fiscalização adotadas até agora não foram suficientes.

Essa admissão fortalece a crítica feita por Flávio. Se as regras existentes foram insuficientes, o governo precisa explicar por que demorou a agir e como permitiu que cassinos virtuais se tornassem tão acessíveis à população.

Lula tenta mudar de posição perto das eleições

Agora, às vésperas da eleição presidencial, o governo Lula estuda uma medida provisória para proibir os cassinos on-line. O Planalto também tenta transformar o combate ao “Tigrinho” em uma bandeira eleitoral, especialmente entre o público evangélico, no qual as apostas enfrentam forte rejeição.

Reportagem publicada em julho mostrou que a estratégia do governo seria apresentar Lula como o presidente responsável por proibir ou restringir as bets. A mesma publicação informou que o impacto sobre a arrecadação poderia ser discutido somente depois das eleições.

A mudança levanta uma pergunta inevitável: se os cassinos virtuais já eram reconhecidos como responsáveis pelo endividamento e pela destruição financeira de famílias, por que a reação mais severa ficou para a reta final da campanha?

Flávio foi direto ao apontar essa contradição. O governo que regulamentou, autorizou, fiscalizou de maneira insuficiente e arrecadou bilhões com o setor agora tenta assumir o papel de principal adversário das apostas.

Cobrança atinge problema real

A expressão “pai do Tigrinho” é uma provocação eleitoral. O problema denunciado por Flávio, entretanto, é real e já foi reconhecido pelo próprio governo.

Famílias comprometem recursos essenciais, trabalhadores acumulam dívidas e pessoas desenvolvem dependência em jogos programados para estimular apostas repetidas. Diferentemente de estabelecimentos físicos, os cassinos virtuais entram nas casas pelo celular e permanecem disponíveis a qualquer hora.

Ao levar o tema para o centro da campanha presidencial, Flávio Bolsonaro obriga Lula a responder não somente pelo que pretende fazer agora, mas pelo que seu governo permitiu desde 2023.

Não é suficiente anunciar medidas quando o dano social já se espalhou. O Brasil precisa saber quanto o governo arrecadou, quantas empresas foram autorizadas, quais mecanismos de fiscalização falharam e por que os jogos virtuais avançaram com tanta facilidade.

Flávio acerta ao exigir essas respostas. Quem regulamentou e passou a arrecadar com o mercado não pode fingir que apenas descobriu o problema na véspera da eleição.