Por: Redação MVE
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, voltou a recorrer a pautas sociais de grande apelo popular durante entrevista à Super Rádio Tupi. Falou contra o feminicídio, defendeu o fim da escala de trabalho 6×1 e apoiou a divisão das tarefas domésticas entre homens e mulheres.
As bandeiras são legítimas e importantes. O problema é Lula tentar apresentá-las ao eleitor como novidades, depois de quase quatro anos no comando do país. Na reta final de mais uma campanha presidencial, o petista oferece discursos onde a população esperava resultados concretos.
Lula citou o pacto contra o feminicídio firmado em fevereiro com representantes do Supremo Tribunal Federal, do Senado e da Câmara. Também defendeu jornadas de trabalho mais humanas e afirmou que os homens devem participar dos serviços de casa.
É fácil concordar com declarações genéricas contra a violência e a exploração. Difícil é ignorar que Lula teve praticamente um mandato inteiro para transformar essas palavras em políticas eficazes.
Feminicídio exige proteção, não apenas pronunciamentos
O combate ao feminicídio não pode ser reduzido a frases emocionais em entrevistas eleitorais. Mulheres ameaçadas precisam de delegacias especializadas, medidas protetivas rápidas, monitoramento dos agressores, abrigos seguros e estrutura policial funcionando nos municípios.
Apesar dos pronunciamentos do governo, o Brasil registrou 1.571 feminicídios em 2025, contra 1.504 no ano anterior, de acordo com dados reunidos pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O aumento não pode ser atribuído automaticamente a uma única autoridade, mas demonstra que pactos e campanhas publicitárias ainda não foram suficientes para proteger as mulheres.
Ao tratar do assunto durante uma entrevista de campanha, Lula deveria explicar o que falhou, quais recursos foram efetivamente aplicados e quais resultados seu governo entregou. Repetir que é contra o feminicídio é o mínimo esperado de qualquer presidente — não uma conquista a ser utilizada eleitoralmente.
Escala 6×1 reaparece na reta final da eleição
O fim da escala 6×1 também ganhou força justamente quando Lula voltou a pedir votos. O presidente tenta ocupar o papel de principal defensor da mudança, mas a proposta depende do Congresso e passou anos sem receber a prioridade política que agora aparece em seus discursos.
A PEC 221/2019 foi aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado somente em 2 de setembro de 2026. O texto, relatado pelo senador Omar Aziz (PSD-AM), prevê dois dias de repouso semanal e redução gradual da jornada máxima de 44 para 40 horas, sem diminuição salarial. A matéria ainda precisa avançar no processo legislativo. Senado Federal
Portanto, o fim da escala 6×1 ainda não é uma realidade. É uma proposta em tramitação. Lula não pode apresentá-la como uma entrega de seu governo nem esconder os desafios econômicos e operacionais que precisarão ser enfrentados por trabalhadores, pequenos comerciantes, empresas e setores essenciais.
Se essa era realmente uma prioridade presidencial, por que a pressão política mais intensa apareceu somente às vésperas da eleição?
Presidente tenta entrar até na rotina das famílias
Lula também resolveu orientar os homens sobre a divisão das tarefas domésticas. A participação de todos nos cuidados da casa é justa e necessária, especialmente diante da sobrecarga historicamente enfrentada pelas mulheres.
Mas o presidente da República não pode utilizar uma recomendação de comportamento pessoal como substituta para políticas públicas. Não é uma frase sobre lavar pratos ou cozinhar que garantirá creches, segurança, emprego, atendimento médico, independência financeira e proteção às brasileiras.
Enquanto Lula dá conselhos sobre a rotina das famílias, milhões de pessoas enfrentam dificuldades para pagar alimentos, energia, aluguel e transporte. A divisão das tarefas domésticas é uma responsabilidade familiar; já melhorar a economia, combater a violência e assegurar serviços públicos é obrigação do governo.
Campanha tenta vender intenção como realização
A entrevista revela uma estratégia conhecida: escolher problemas reais, repetir aquilo que todos desejam ouvir e apresentar intenções como se fossem resultados. Lula fala como candidato de oposição ao próprio governo, prometendo solucionar dificuldades que permaneceram durante sua administração.
Combater o feminicídio é dever do Estado. Modernizar as relações de trabalho exige responsabilidade e negociação. Valorizar as mulheres demanda políticas concretas. Nenhuma dessas pautas deveria servir apenas como instrumento eleitoral.
Depois de quase quatro anos, Lula não pode continuar pedindo confiança com base apenas em palavras. O eleitor tem o direito de perguntar: onde estão os resultados, por que as soluções demoraram tanto e por que essas promessas voltaram a ganhar urgência justamente quando o presidente precisa de votos?











