Por: Redação MVE
BRASÍLIA (DF) — Uma nova revelação da investigação sobre o Banco Master coloca novamente o período em que o ministro Dias Toffoli comandou o caso no Supremo Tribunal Federal sob escrutínio.
Mensagens analisadas pela Polícia Federal mostram que integrantes de “A Turma”, grupo que, segundo a investigação, atuava a serviço do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, lamentaram a saída de Toffoli da relatoria.
Em conversa de 27 de fevereiro, Bruno Correa Lopes, apontado pela PF como integrante do grupo, afirmou a Manoel Mendes Rodrigues que a situação estava “piorando muito rápido agora que saiu o Toffoli”. A mudança de relator havia ocorrido em 12 de fevereiro.
A frase é curta.
Mas, diante da dimensão do escândalo Master, provoca uma pergunta inevitável:
por que a saída de Toffoli era considerada uma notícia ruim por pessoas que a PF associa ao grupo de Vorcaro?
Quem era “A Turma”
A importância da conversa aumenta quando se observa quem são os interlocutores investigados.
Segundo a apuração da Polícia Federal relatada pela Folha, “A Turma” seria formada por seis integrantes e receberia aproximadamente R$ 400 mil mensais. Os investigadores atribuem ao grupo suspeitas graves, incluindo intimidação de pessoas, pagamento de propina a servidores e obtenção ilegal de informações sigilosas.
Trata-se de uma investigação em andamento, portanto essas acusações ainda precisam passar pelo devido processo legal.
Mas existe uma diferença importante entre especulação política e evidência documental:
a reação à saída de Toffoli aparece em mensagens efetivamente obtidas e analisadas pela Polícia Federal.
Toffoli deixou o caso em fevereiro
Dias Toffoli comandou o caso Master no Supremo durante aproximadamente três meses.
Sua saída aconteceu em 12 de fevereiro de 2026, depois de uma sequência de controvérsias envolvendo a condução do processo.
Naquela data, os dez ministros do STF divulgaram uma nota conjunta afirmando que não havia situação de suspeição ou impedimento de Toffoli e declararam válidos os atos praticados por ele. O próprio ministro pediu que os processos fossem redistribuídos, alegando razões institucionais. André Mendonça acabou sorteado como novo relator.
Essa ressalva é fundamental: não existe decisão do STF reconhecendo que Toffoli favoreceu Vorcaro ou o Banco Master. Pelo contrário, a manifestação oficial da Corte sustentou a validade de seus atos.
Mas isso não torna irrelevante o que os investigados diziam reservadamente.
Se nada mudaria, por que o grupo ficou preocupado?
Esse talvez seja o ponto mais incômodo da nova revelação.
Se a mudança de relator representasse apenas uma troca burocrática dentro do Supremo, por que integrantes de um grupo supostamente ligado a Vorcaro concluíram que a situação havia começado a piorar rapidamente?
A frase não prova que Toffoli tenha beneficiado o grupo.
Também não prova que existisse qualquer acordo entre o ministro e Vorcaro.
Mas é suficiente para justificar uma investigação jornalística e institucional sobre o motivo daquela percepção.
O país precisa saber se o comentário era apenas uma avaliação subjetiva dos investigados ou se havia fatos concretos que os faziam acreditar que a permanência de Toffoli seria melhor para seus interesses.
Conversas também revelam preocupação com patrimônio
As mensagens obtidas pela PF vão além da troca sobre Toffoli.
Segundo o Poder360, integrantes do grupo discutiram a venda acelerada de patrimônio da família Vorcaro diante do temor de perda ou bloqueio dos bens.
Em uma das conversas, um dos interlocutores relata que imóveis estariam sendo negociados por valores muito abaixo do que considerava valer, numa tentativa de levantar recursos rapidamente.
Esse material integra uma investigação muito mais ampla sobre a estrutura que teria operado ao redor do antigo controlador do Banco Master.
E a cada nova divulgação fica mais difícil tratar o caso como uma simples controvérsia bancária.
Passagem de Toffoli pelo caso já havia provocado controvérsia
Enquanto esteve na relatoria, Toffoli tomou decisões relevantes sobre a investigação.
Em janeiro, por exemplo, retirou o sigilo de depoimentos e de uma acareação realizada no âmbito da Operação Compliance Zero, atendendo a pedido do Banco Central. O restante dos autos permaneceu protegido até manifestação da PGR.
A própria nota divulgada pelo Supremo quando Toffoli deixou o processo ressaltou que ele havia atendido aos pedidos apresentados pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República.
Portanto, não seria correto transformar a mensagem dos investigados em prova automática contra o ministro.
O que ela cria é uma questão diferente — e politicamente explosiva:
qual era a expectativa que o grupo de Vorcaro tinha em relação à permanência de Toffoli?
O STF não pode simplesmente ignorar essa pergunta
O caso Master já alcançou uma dimensão institucional muito maior do que a situação financeira de um banco.
Há investigações sobre Vorcaro, documentos, mensagens, contratos milionários e sucessivos embates dentro do próprio Supremo.
Nesta segunda-feira, a PGR também defendeu a retirada do sigilo de um processo envolvendo a rede de pagamentos de Daniel Vorcaro, justamente para permitir que seja compreendida a totalidade dos fatores envolvidos no caso.
Quanto mais informações aparecem, maior deveria ser a exigência por transparência.
E isso precisa valer para todos.
Se a mensagem sobre Toffoli não possui qualquer significado além da opinião particular de um investigado, que a investigação esclareça isso.
Se havia algum motivo concreto para o grupo acreditar que sua situação era melhor enquanto Toffoli permanecia no processo, esse motivo precisa vir a público.
Não basta dizer que não houve impedimento
A manifestação dos dez ministros do Supremo de fevereiro afastou juridicamente a suspeição e o impedimento de Toffoli naquele momento.
Mas uma declaração institucional não elimina fatos novos que posteriormente venham a aparecer.
É exatamente assim que uma investigação deve funcionar.
Não se pode condenar Toffoli porque um investigado aparentemente preferia que ele permanecesse como relator.
Mas também seria absurdo concluir que uma conversa dessa natureza não merece qualquer esclarecimento simplesmente porque envolve um ministro do STF.
Ministro não pode ser condenado por suspeita. Mas também não pode ser blindado de perguntas por ocupar uma cadeira no Supremo.
A pergunta que ficou para Toffoli
O episódio deixa uma pergunta simples que precisa ser respondida pelos próprios fatos:
por que integrantes de um grupo que a Polícia Federal associa a Daniel Vorcaro consideraram que a situação estava “piorando muito rápido” justamente depois que Dias Toffoli deixou o comando do caso Master?
Pode existir uma explicação perfeitamente legítima.
Mas ela precisa ser encontrada.
Porque, numa investigação dessa dimensão, a sociedade não precisa de proteção a ministros, banqueiros ou grupos políticos.
Precisa de provas.
Precisa de transparência.
E precisa saber por que pessoas investigadas lamentaram tanto a saída de quem comandava o processo que poderia atingi-las.











