Por: Redação MVE
Neste 7 de Setembro, quando o Brasil celebra sua Independência, um capítulo menos conhecido da história ajuda a compreender que o rompimento com Portugal, proclamado em 1822, não nasceu de um acontecimento isolado.
Décadas antes do famoso grito de Dom Pedro I às margens do Ipiranga, ideias de liberdade, independência e novas formas de organização política já circulavam entre Europa e Américas. Nesse ambiente de profundas transformações, a Independência dos Estados Unidos, declarada em 1776, tornou-se uma das referências para movimentos emancipatórios que surgiriam posteriormente no Brasil.
A influência, entretanto, não foi exclusiva. Historiadores ressaltam que o processo brasileiro precisa ser compreendido dentro de um cenário muito mais amplo, no qual também tiveram importância o pensamento iluminista, a Revolução Francesa, iniciada em 1789, e a Revolução Haitiana.
Ideias americanas chegaram ao Brasil
Um dos exemplos mais importantes dessa circulação de ideias está na Inconfidência Mineira de 1789, movimento que defendia o rompimento com Portugal e teve Tiradentes entre seus integrantes.
A experiência norte-americana despertava interesse entre brasileiros que discutiam a possibilidade de separação da Coroa portuguesa. Segundo pesquisadores ouvidos pela Folha de S.Paulo, notícias sobre o que ocorria na América do Norte circulavam por cartas, livros, contatos pessoais e pelas redes comerciais que conectavam o Brasil ao mundo atlântico.
Um personagem chama especialmente a atenção: José Joaquim Maia e Barbalho.
Enquanto estudava na Europa, Maia manteve correspondência com Thomas Jefferson, uma das figuras centrais da independência norte-americana e que mais tarde se tornaria presidente dos Estados Unidos. Os dois chegaram a se encontrar na França para discutir a situação do Brasil.
Outro nome relacionado à Inconfidência, José Álvares Maciel, acompanhava da Inglaterra os acontecimentos políticos e as transformações provocadas pela independência norte-americana.
Os Estados Unidos foram referência, mas não um “modelo pronto”
Apesar dessas conexões, especialistas fazem uma ressalva importante: seria uma simplificação afirmar que a Independência do Brasil foi uma cópia da experiência dos Estados Unidos.
A historiadora Mary Anne Junqueira, professora da USP, argumenta que a circulação dessas influências ocorreu de maneira difusa. Ao mesmo tempo em que a experiência norte-americana despertava interesse, ideias políticas vindas da Europa também ganhavam força e o próprio sistema colonial atravessava uma fase de transformação.
A professora Kirsten Schultz, da Seton Hall University, segue interpretação semelhante: a independência americana deve ser entendida como uma entre várias influências que se acumularam naquele período.
Essa diferença é importante porque Brasil e Estados Unidos acabaram seguindo caminhos bastante distintos.
Os norte-americanos romperam com a Grã-Bretanha em 1776 e estabeleceram uma república. Já o Brasil declarou sua independência em 7 de setembro de 1822, mantendo a monarquia e tendo Dom Pedro I como imperador.
Outras revoltas brasileiras também receberam essas ideias
A Inconfidência Mineira não foi o único movimento brasileiro inserido nessa transformação política.
A Conjuração Baiana, de 1798, e posteriormente a Revolução Pernambucana, de 1817, também fizeram parte de um período em que ideias republicanas, federalistas, liberais e emancipacionistas circulavam com intensidade pelo continente americano. A experiência dos Estados Unidos estava entre essas referências, ao lado das revoluções ocorridas na Europa e no Caribe.
Portanto, quando chegou 1822, o debate sobre liberdade e ruptura colonial já possuía décadas de história.
EUA reconheceram a Independência brasileira em 1824
A relação entre os dois países ganhou outro capítulo importante depois da proclamação brasileira.
Em 26 de maio de 1824, os Estados Unidos reconheceram oficialmente a independência do Brasil. O reconhecimento ocorreu quando o presidente norte-americano James Monroe recebeu José Silvestre Rebello como representante diplomático brasileiro em Washington. A data é registrada tanto pelo Departamento de Estado norte-americano quanto pela Fundação Alexandre de Gusmão, ligada ao Ministério das Relações Exteriores do Brasil.
Documentos diplomáticos norte-americanos do período registram ainda os esforços brasileiros para consolidar internacionalmente o novo Estado e estreitar relações com as demais nações do continente.
204 anos de Independência
Neste 7 de setembro de 2026, o Brasil completa 204 anos da declaração de Independência.
Mais de dois séculos depois, revisitar o período mostra que o episódio do Ipiranga é o símbolo máximo de um processo muito maior. A construção da independência brasileira envolveu conflitos internos, interesses econômicos, disputas políticas e ideias que atravessaram fronteiras.
A independência norte-americana teve seu papel nesse cenário. Mas não esteve sozinha.
Entre Estados Unidos, Europa, Haiti e os próprios movimentos surgidos dentro do território brasileiro, formou-se um ambiente de transformação que colocou em xeque o antigo sistema colonial.
E foi nesse mundo em mudança que, em 7 de setembro de 1822, o Brasil deu o passo que marcaria definitivamente sua história como nação independente.











