Por: Manuel Menezes
Na política, não basta fazer discursos inflamados. É preciso ter coerência para sustentá-los.
Ao afirmar recentemente que seus adversários representam a política da “lambança” e dos “maus caminhos”, o Governador do AM, e pré-candidato a reeleição, Roberto Cidade, tentou ocupar um espaço conhecido: o de fiscal da moralidade pública.
Mas existe um detalhe que parece ter sido esquecido.
Quem escolhe apontar o dedo para os outros precisa estar preparado para mostrar as próprias mãos.
E é justamente aí que surge o problema.
Roberto Cidade não chega à disputa eleitoral carregando apenas promessas ou discursos. Carrega também um histórico político que, embora não tenha resultado em condenação judicial por corrupção, foi marcado por episódios que continuam despertando questionamentos legítimos da sociedade amazonense.
Não são acusações inventadas por adversários.
São fatos públicos.
São reportagens.
São contratos.
São decisões administrativas.
E são episódios que merecem ser lembrados justamente porque foi o próprio Cidade quem decidiu transformar a ética em arma eleitoral.
O peso dos contratos públicos
Durante a gestão do governador Wilson Lima, empresas ligadas a familiares de Roberto Cidade mantiveram contratos milionários com o Governo do Amazonas, especialmente na área do transporte escolar fluvial.
O pré-candidato sempre negou participação societária nessas empresas e sustentou que os contratos ocorreram dentro da legalidade.
Essa explicação merece ser considerada.
Mas não encerra o debate político.
Porque a discussão nunca foi apenas jurídica.
Ela também é ética.
Existe uma enorme diferença entre aquilo que é legal e aquilo que a sociedade considera moralmente aceitável.
E quem pretende pedir voto falando de ética precisa compreender essa diferença.
A decisão que levantou mais perguntas do que respostas
Em 2026, quando assumiu interinamente o Governo do Amazonas, Roberto Cidade tomou uma decisão que chamou atenção de todo o meio político.
Determinou a suspensão dos contratos existentes entre o Estado e empresas ligadas à sua família.
A justificativa foi evitar qualquer suspeita de conflito de interesses.
A decisão foi correta.
Mas também produziu uma pergunta inevitável.
Se não existia qualquer possibilidade de conflito, por que foi necessário suspender os contratos?
A resposta nunca foi plenamente esclarecida.
E enquanto não for, continuará sendo um tema legítimo do debate político.
O aliado que agora tenta se vender como novidade
Outro aspecto que causa estranheza é a tentativa de apresentar Roberto Cidade como símbolo de uma nova política.
Cidade foi um dos principais sustentáculos da gestão Wilson Lima dentro da Assembleia Legislativa.
Presidiu o Parlamento durante praticamente todo o governo.
Apoiou projetos estratégicos do Executivo.
Construiu sua liderança política exatamente ao lado do governador.
Portanto, não faz sentido tentar vender a imagem de alguém distante dos problemas enfrentados pela administração estadual.
Quem ajudou a governar também divide responsabilidades políticas.
Os acertos.
E os desgastes.
Moralidade não pode ser seletiva
Nenhum político deve ser condenado sem provas.
Nenhum cidadão pode ser tratado como culpado sem decisão judicial.
Esse é um princípio básico do Estado de Direito.
Mas existe outro princípio igualmente importante.
Quem cobra transparência precisa praticar transparência.
Quem exige ética precisa demonstrar ética.
Quem acusa precisa aceitar ser questionado.
Não existe imunidade moral para quem ocupa cargo público.
O eleitor amazonense merece mais
A campanha de 2026 não pode ser reduzida a frases de efeito e ataques calculados.
O Amazonas enfrenta problemas muito maiores.
Hospitais.
Segurança.
Infraestrutura.
Interior abandonado.
Empregos.
Educação.
Esses deveriam ser os temas centrais.
Mas quando um candidato escolhe transformar a moralidade em sua principal bandeira, inevitavelmente convida a sociedade a examinar sua própria biografia política.
Foi exatamente isso que Roberto Cidade fez.
E é por isso que seu discurso encontra resistência.
Não porque exista uma condenação contra ele.
Mas porque existem episódios que ainda exigem explicações públicas e coerência.
Na política, o maior patrimônio de um líder não é o discurso.
É a credibilidade.
E credibilidade não se conquista apontando o dedo para os outros.
Constrói-se sendo capaz de responder, com serenidade e transparência, às perguntas dirigidas a si próprio.
Enquanto isso não acontecer, Roberto Cidade continuará enfrentando um problema que nenhum discurso consegue esconder.
Seu telhado de vidro continuará falando mais alto que suas palavras.











