Por: Manuel Menezes
A frase foi forte, calculada e carregada de simbolismo político: “O Estado não tem dono”. Ao responder às críticas feitas pelo senador Omar Aziz à administração estadual, Wilson Lima não estava apenas defendendo sua gestão ou a de seus aliados. Estava enviando um recado claro para o principal adversário político que desponta no horizonte de 2026.
O embate entre os dois grupos revela aquilo que muitos já perceberam nos bastidores: a campanha eleitoral ainda não começou oficialmente, mas a disputa pelo comando do Amazonas já está em pleno andamento.
De um lado, Omar Aziz voltou à tribuna do Senado para questionar a situação da saúde, da educação, da segurança pública e a gestão dos recursos estaduais. Em um discurso duro, cobrou explicações sobre bilhões arrecadados pelo Estado nos últimos anos, criticou medidas envolvendo recursos da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e pediu atuação dos órgãos de controle.
Do outro lado, Wilson Lima reagiu rapidamente. E sua resposta foi além dos argumentos administrativos. Ao afirmar que o Estado não tem dono, o ex-governador atingiu diretamente uma narrativa que há anos acompanha a política amazonense: a influência exercida por grupos tradicionais que se alternam ou disputam espaço no poder.
Mas a verdade é que, para o cidadão comum, pouco importa quem vence a batalha dos discursos se os problemas continuam os mesmos.
O Amazonas segue convivendo com desafios históricos na saúde pública, dificuldades na infraestrutura do interior, problemas na educação e um sentimento crescente de abandono em muitas comunidades afastadas da capital. Enquanto isso, a classe política intensifica a troca de acusações sobre quem errou mais no passado ou quem tem mais legitimidade para falar sobre o presente.
O eleitor amazonense já ouviu esse roteiro antes.
Em períodos pré-eleitorais, surgem discursos sobre responsabilidade, transparência, renovação e compromisso com o povo. Porém, quando a campanha termina, muitas das promessas acabam ficando pelo caminho, enquanto as dificuldades da população permanecem.
O mais preocupante é que o debate corre o risco de ficar restrito aos ataques pessoais e às disputas de grupos políticos, deixando em segundo plano aquilo que realmente deveria importar: quais são as soluções para os problemas do Amazonas?
O povo quer saber quando a saúde vai melhorar.
Quer saber quando o interior terá infraestrutura adequada.
Quer saber quando os serviços públicos funcionarão com a eficiência que os impostos pagos exigem.
A frase de Wilson Lima pode até estar correta. O Estado não tem dono.
Mas também é verdade que o Estado não pertence aos grupos políticos que há décadas disputam espaço no poder como se cada eleição fosse apenas uma troca de comando entre velhos conhecidos.
O verdadeiro dono do Estado é o povo.
E o povo tem memória.
Quando chegar as eleições, não bastará apresentar discursos fortes ou frases de efeito. Será preciso explicar resultados, assumir responsabilidades e convencer os amazonenses de que o futuro será diferente do passado que tantos agora tentam atribuir aos seus adversários.
Porque, no fim das contas, o eleitor não vota em frases.
Ele vota em quem acredita ser capaz de mudar sua realidade.
