Por Manuel Menezes
Existe uma pergunta que muitos brasileiros começaram a fazer após a divulgação da nota oficial do Governo Lula sobre a decisão dos Estados Unidos de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas.
Se o alvo da medida são facções criminosas responsáveis pelo tráfico internacional de drogas, armas e lavagem de dinheiro, por que o governo brasileiro reagiu como se o Brasil estivesse sendo atacado?
Essa é uma dúvida legítima.
Afinal, a decisão americana não foi direcionada contra o povo brasileiro, contra as instituições nacionais ou contra a soberania do país. O foco declarado são organizações criminosas que há décadas espalham violência dentro do Brasil e que também atuam em redes internacionais de tráfico que alcançam diversos países, inclusive os Estados Unidos.
Então por que a reação do Planalto foi tão defensiva?
Por que transformar uma ação contra PCC e Comando Vermelho em uma discussão sobre soberania nacional?
Mais estranho ainda é observar que a nota do governo dedica espaço significativo para atacar adversários políticos e questionar a decisão americana, mas não demonstra a mesma contundência ao falar dos crimes praticados pelas facções.
O cidadão comum lê o comunicado e inevitavelmente se pergunta: a principal preocupação do governo é combater o PCC e o CV ou combater a narrativa criada pelos Estados Unidos?
Porque existe uma diferença enorme entre defender a soberania do país e parecer desconfortável com uma iniciativa internacional voltada ao enfrentamento do crime organizado.
Ninguém discute que o Brasil deve preservar sua independência.
Mas também é verdade que o PCC e o Comando Vermelho não respeitam fronteiras.
As drogas produzidas e transportadas por organizações criminosas atravessam países.
O dinheiro movimentado pelas facções circula em sistemas financeiros internacionais.
As armas utilizadas pelo crime organizado muitas vezes entram no Brasil vindas do exterior.
Trata-se, portanto, de um problema global.
E problemas globais exigem cooperação internacional.
O próprio governo reconhece isso quando menciona acordos de inteligência e colaboração com outros países.
Por isso, causa estranheza que uma investigação ou classificação promovida pelos Estados Unidos seja imediatamente tratada como uma ameaça à soberania brasileira.
Se as facções realmente representam um inimigo comum, não deveria haver convergência de esforços?
Outra questão que merece reflexão é a seguinte: quem mais se beneficia quando governos passam a discutir questões diplomáticas em vez de concentrar o debate no fortalecimento do combate ao crime organizado?
Certamente não são as famílias que vivem em comunidades dominadas por facções.
Certamente não são os comerciantes vítimas da violência.
Certamente não são os jovens aliciados pelo tráfico.
Enquanto políticos discutem narrativas, PCC e Comando Vermelho continuam fazendo aquilo que sempre fizeram: movimentando drogas, dinheiro e violência.
O Governo Lula tem razão quando afirma que a soberania nacional é inegociável.
Mas a população também tem o direito de exigir uma resposta clara para uma pergunta simples.
Se a medida americana foi direcionada contra organizações criminosas que traficam drogas, armas e promovem terror em diversas comunidades, por que a reação do governo pareceu tão preocupada em defender a imagem do Brasil e tão pouco focada em demonstrar apoio a qualquer iniciativa que possa enfraquecer essas facções?
Essa é uma pergunta que o Planalto ainda não respondeu de forma convincente.
E enquanto ela permanecer sem resposta, continuará alimentando dúvidas em uma parcela significativa da sociedade brasileira.
