Menu

Grupo de WhatsApp de Vorcaro era usado para acertar fraudes no BRB, diz PF: ‘A conta não fecha’

WhatsApp
Facebook
Telegram
X
LinkedIn
Email
Mensagens obtidas pela Polícia Federal no celular do banqueiro Daniel Vorcaro detalham a criação de carteiras de crédito fictícias e o alinhamento de propinas milionárias com a cúpula do banco público.

Por: Redação MVE

Economia & Justiça – As investigações da Polícia Federal (PF) no âmbito da Operação Compliance Zero ganharam um capítulo definitivo com a extração de dados do telefone celular do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. A perícia técnica da PF identificou um grupo de mensagens no aplicativo WhatsApp batizado de “INFO – BRB”, utilizado como canal direto para orientar e coordenar a suposta elaboração de fraudes documentais massivas envolvendo a venda de carteiras de crédito sem lastro ao Banco de Brasília (BRB).

O esquema, que segundo os investigadores alcança a impressionante cifra de R$ 12,2 bilhões em operações suspeitas, consistia na criação de ativos financeiros fictícios para capitalizar o Banco Master e cobrir um rombo bilionário, utilizando a estrutura da instituição pública do Distrito Federal.

O grupo “INFO – BRB” e as carteiras fictícias

De acordo com os relatórios da Polícia Federal, o grupo de WhatsApp reunia o núcleo financeiro da organização: o próprio Daniel Vorcaro; Alberto Félix, então superintendente de tesouraria do Banco Master; e Ângelo Silva, que ocupava o cargo de diretor financeiro da instituição privada.

Nas mensagens interceptadas pela PF, Vorcaro atua de forma direta na gestão das irregularidades. Em um dos diálogos operacionais, o banqueiro chama a atenção de seus subordinados sobre “divergências” gritantes nos valores de uma carteira de crédito fictícia que estava sendo formatada para repasse ao BRB. O monitoramento aponta que a equipe corria contra o tempo para alinhar os balanços maquiados antes que os órgãos de fiscalização do Banco Central (BC) pudessem travar a transação.

A mecânica do crime, segundo o Ministério da Justiça, envolvia a venda dessas carteiras “podres” ou inexistentes ao banco público. Posteriormente, após auditorias e vistorias do BC, esses créditos eram substituídos às pressas por outros ativos sem qualquer avaliação técnica ou garantia real adequada, numa tentativa de burlar o sistema financeiro nacional.

O “Plano B” e o veto do Banco Central

Documentos apreendidos revelam que o Banco Master tentou desenhar uma complexa engenharia financeira ainda em 2025. O plano inicial previa uma cisão parcial do Master com a atuação do BTG Pactual, o apoio do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e a transferência de ativos para uma nova estrutura que seria inteiramente assumida pelo BRB.

O negócio chegou a ser anunciado ao mercado, mas foi integralmente barrado pelo Banco Central em setembro de 2025 diante de contundentes indícios de fraude e inconsistência patrimonial. Foi a partir desse veto que a Polícia Federal deflagrou as fases mais agudas da Compliance Zero, revelando que a investida de Vorcaro sobre o BRB vinha ocorrendo de forma insistente pelo menos desde 2024.

Propinas em imóveis de luxo e prisões

A engrenagem política que viabilizava a fraude dentro do banco estatal era liderada por Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB, que foi preso preventivamente pela PF. As investigações apontam que Costa atuava como um “verdadeiro mandatário” dos interesses de Daniel Vorcaro dentro da instituição pública.

Mensagens trocadas diretamente entre o ex-presidente do BRB e Vorcaro detalham o acerto de uma propina estimada em R$ 146,5 milhões. O pagamento do suborno estava sendo operacionalizado por meio da entrega de imóveis residenciais de alto padrão e coberturas de luxo localizadas em São Paulo e em Brasília. Nos diálogos, Paulo Henrique Costa chega a relatar visitas aos imóveis acompanhado de sua esposa e discute com o banqueiro os “parâmetros” e empreendimentos imobiliários que seriam transferidos como pagamento. A PF estima que ao menos R$ 74 milhões desse montante foram efetivamente pagos através desses ativos.

Organização criminosa sofisticada

A Operação Compliance Zero, que já ultrapassou a marca de seis meses de diligências contínuas, resultou na expedição de mais de uma centena de mandados de busca e apreensão e no bloqueio judicial de aproximadamente R$ 27,71 bilhões em bens dos investigados.

A PF detalha que a rede de Daniel Vorcaro contava com uma estrutura ramificada em múltiplos núcleos, apelidada internamente de “A Turma”. Esse grupo utilizava táticas violentas de intimidação, coerção, invasão de dispositivos informáticos de concorrentes, monitoramento ilegal de autoridades e contava com o apoio logístico de hackers, um policial federal aposentado e até um policial na ativa. Devido à gravidade e à ocultação de dados cruciais, a PF rejeitou formalmente uma proposta de acordo de delação premiada apresentada pela defesa de Vorcaro, alegando ausência de informações novas e relevantes.

O outro lado

Até o momento, a defesa de Daniel Vorcaro e do Banco Master não se manifestou detalhadamente sobre o teor das mensagens do grupo “INFO – BRB”. Em ocasiões anteriores, os advogados de Paulo Henrique Costa negaram qualquer irregularidade e afirmaram que o ex-executivo do BRB sempre colaborou com as auditorias internas e que sua prisão não possui justificativa técnica de risco à instrução criminal. O espaço permanece aberto para a manifestação formal dos citados.

Para acompanhar de perto a cobertura jornalística sobre os bastidores desse escândalo e as novas mensagens divulgadas pelas autoridades, veja o relato em vídeo detalhado pela imprensa: Mensagens de Daniel Vorcaro no Jornal da Band. O vídeo apresenta os gráficos das transações e explica como o Banco Central identificou o rombo nas carteiras antes da atuação policial.