A libertação da ex-deputada federal Carla Zambelli pela Justiça italiana provocou forte repercussão política nesta sexta-feira (22) e abriu um novo capítulo no embate internacional envolvendo o Brasil, o Supremo Tribunal Federal e autoridades italianas.
O advogado da parlamentar, Fabio Pagnozzi, comemorou publicamente a decisão da Corte de Cassação de Roma, a mais alta instância do Judiciário italiano, que anulou a autorização de extradição concedida anteriormente e determinou a soltura imediata de Zambelli.
Durante entrevista concedida ao programa Oeste Sem Filtro, Pagnozzi afirmou que a defesa não esperava uma reversão tão rápida e classificou a decisão como uma vitória das garantias processuais e da independência judicial italiana. Segundo ele, a soltura ocorreu em circunstâncias incomuns até mesmo para os padrões do sistema penitenciário italiano.
De acordo com o advogado, a ex-parlamentar deixou a prisão em Roma no fim da noite, algo considerado raro no país europeu. Pagnozzi afirmou que a Corte reconheceu que Zambelli estaria presa injustamente havia meses.
Defesa denuncia influência brasileira no Judiciário italiano
O ponto mais sensível da manifestação do advogado ocorreu quando ele acusou autoridades brasileiras de exercerem influência sobre instâncias inferiores da Justiça italiana durante o processo de extradição.
Segundo Pagnozzi, havia sinais claros de alinhamento político nas decisões anteriores que autorizavam a entrega da ex-deputada ao Brasil. O advogado declarou que a Suprema Corte italiana adotou postura diferente e analisou o caso com maior atenção às garantias legais e às alegações da defesa.
A defesa sustenta que Carla Zambelli é alvo de perseguição política no Brasil e afirma que o processo conduzido pelo STF possui motivações ideológicas. Esse argumento passou a ser central na estratégia jurídica apresentada na Itália.
A decisão da Corte de Cassação anulou entendimento anterior da Corte de Apelação de Roma, que havia autorizado a extradição da ex-deputada a pedido do governo brasileiro.
Processo envolve condenação no Brasil
Carla Zambelli foi condenada no Brasil a mais de dez anos de prisão no processo relacionado à invasão dos sistemas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). O caso também envolveu o hacker Walter Delgatti Neto, conhecido nacionalmente como “Hacker de Araraquara”.
Segundo as investigações brasileiras, o sistema do CNJ teria sido invadido para inclusão de documentos falsos, incluindo um suposto mandado de prisão contra o ministro do STF Alexandre de Moraes.
A condenação resultou em pedidos de prisão e no avanço do processo de extradição após Zambelli deixar o Brasil e se estabelecer na Itália, país do qual também possui cidadania.
Itália discutiu peso da dupla cidadania
Durante o julgamento, um dos pontos mais debatidos foi justamente a nacionalidade italiana da ex-deputada. Em decisões anteriores, magistrados italianos haviam afirmado que a cidadania não impediria automaticamente sua extradição, alegando que Zambelli não possuía vínculos sociais e culturais profundos com a Itália.
Mesmo assim, a Corte de Cassação acabou revertendo o entendimento inicial e determinando sua soltura.
A decisão gerou intensa reação nas redes sociais entre aliados da ex-parlamentar, parlamentares conservadores e apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro. Mensagens classificaram a medida como uma derrota para o STF e um reconhecimento internacional de suposta perseguição política no Brasil.
Governo brasileiro ainda pode atuar no caso
Apesar da decisão favorável à defesa, o caso ainda pode ter novos desdobramentos diplomáticos e jurídicos. Antes da reversão na Suprema Corte italiana, o ministro Alexandre de Moraes havia determinado que o Ministério da Justiça e o Ministério das Relações Exteriores prosseguissem com os trâmites de extradição mesmo com recursos pendentes na Itália.
Especialistas avaliam que o episódio poderá aumentar o desgaste internacional envolvendo decisões do STF e debates sobre liberdade política, extradição e soberania judicial entre Brasil e países europeus.
Até o momento, o Supremo Tribunal Federal não divulgou posicionamento oficial sobre a decisão da Justiça italiana.











