O nome de Marcelo Ivo de Carvalho deixou os bastidores da inteligência para se tornar uma das figuras mais controversas da Polícia Federal em 2026. Atuando como o único delegado brasileiro lotado dentro do ICE (Immigration and Customs Enforcement) em Miami, Ivo é apontado como o arquiteto da estratégia que colocou o ex-diretor da Abin, Alexandre Ramagem, na mira das autoridades migratórias dos EUA. Contudo, uma investigação profunda sobre o seu histórico revela facetas ocultas que vão desde crimes de trânsito fatais até táticas de vigilância que desafiam as leis americanas.
O Passado Obscuro: Atropelamento e Morte em Sorocaba
Antes de ocupar o posto de maior prestígio nas Américas, Marcelo Ivo protagonizou um episódio trágico no Brasil. Em outubro de 2016, enquanto chefiava a delegacia da PF no Aeroporto de Guarulhos, Ivo atropelou e matou o vigilante Francisco Lopes da Silva Neto na Rodovia Raposo Tavares.
- As Irregularidades: O delegado conduzia uma Mercedes-Benz branca (apreendida pela PF) com a CNH vencida há mais de um ano e apresentava sinais de embriaguez.
- Impunidade: Apesar da gravidade, Ivo não perdeu o cargo nem foi responsabilizado criminalmente na época, mantendo a sua ascensão na corporação — um contraste irónico com o facto de ter usado a “habilitação vencida” de Ramagem como pretexto para a sua detenção nos EUA.
A “Armadilha” em Miami e a Vigilância sobre Brasileiros
A investigação aponta que Marcelo Ivo transformou o oficialato de Miami numa extensão dos inquéritos do STF conduzidos pelo ministro Alexandre de Moraes.
- Monitoramento de Cidadãos: Ivo é acusado de coordenar a vigilância de brasileiros e até de cidadãos americanos, como Flávia Magalhães, em território estrangeiro. Flávia relatou ter sido seguida em manifestações e abordada em parques por agentes que se identificavam como da PF brasileira.
- Contorno da Lei: Para evitar os processos lentos de extradição, o delegado teria passado a utilizar a via migratória (ICE) para forçar a saída de desafectos políticos do governo atual, o que gerou um forte desgaste com o governo de Donald Trump.
Guerra de Inteligência: O Conflito com a Gestão Anterior
O posto em Miami nem sempre foi ocupado por aliados do atual governo. O antecessor de Ivo, o agente Fabrício Scarpelli, afirmou ter sofrido pressões para realizar operações informais e ilegais contra brasileiros nos EUA. Ao recusar-se a cumprir ordens que não vinham por canais oficiais, Scarpelli enfrentou processos internos, o que abriu caminho para a nomeação de Marcelo Ivo — visto como um perfil mais “alinhado” às necessidades do momento político em Brasília.
Risco Diplomático e a Lei Americana
As atividades de Ivo na Flórida podem ter violado o Foreign Agents Registration Act (FARA), que exige que agentes estrangeiros se registem formalmente para realizar coletas de informação. A sua expulsão dos EUA em abril de 2026 é lida como uma resposta de Washington à tentativa de “instrumentalização” das agências americanas para fins políticos brasileiros.
Bebeu, atropelou, matou, mas ficou no cargo
Em outubro de 2016, Marcelo Ivo de Carvalho atropelou e matou um trabalhador numa rodovia de Sorocaba, dirigindo embriagado e com a carteira de habilitação vencida havia mais de um ano — mas não perdeu o cargo nem foi responsabilizado criminalmente.
Ironicamente, a irregularidade usada como desculpa para derrubar Ramagem foi justamente a falta de habilitação válida para dirigir nos Estados Unidos. No caso de Marcelo Ivo, porém, a ausência de uma carteira regular não impediu que escapasse da prisão, mantivesse o cargo e mais tarde ascendesse ao posto mais estratégico da Polícia Federal nas Américas.
Marcelo Ivo saiu de São Paulo na madrugada de domingo de 23 de outubro de 2016 em uma Mercedes-Benz branca apreendida pela PF, autorizada para seu uso como chefe da delegacia aeroportuária. Seguia pela Rodovia Raposo Tavares para visitar os pais no interior de São Paulo — uma viagem pessoal, com viatura de serviço.
No km 94, em Sorocaba, por volta das 6h, o veículo atingiu a motocicleta de Francisco Lopes da Silva Neto, 36 anos, vigilante que voltava para casa em Votorantim após o turno noturno em uma indústria. Francisco havia emigrado do Ceará e conciliava dois empregos. O impacto destruiu a moto, lançou Francisco contra a barreira metálica e o matou no local. O carro parou a 100 metros do ponto de colisão.

A Polícia Rodoviária aplicou o bafômetro no local. O resultado foi 0,49 miligramas de álcool por litro de ar expirado — valor que supera o limite criminal de 0,34 mg/L estabelecido pela Resolução Contran nº 432/2013. A Carteira Nacional de Habilitação de Marcelo Ivo estava vencida havia um ano e três meses no momento do acidente. Ele foi preso em flagrante por homicídio culposo sob influência de álcool. O delegado plantonista que o atendeu, Régis Campos Vieira, afirmou que Ivo “não apresentava sinais aparentes de embriaguez” e o liberou mediante fiança de R$ 2.000.
A PF abriu sindicância interna. Marcelo Ivo não foi afastado do cargo. O processo penal tramitou em segredo de Justiça pelo TJSP. Em 22 de setembro de 2020 — quatro anos depois —, a Justiça paulista julgou a ação improcedente por insuficiência de provas. O argumento da defesa que pesou no tribunal: um laudo toxicológico produzido no processo cível — e não no penal — descartou alteração psicomotora; uma perícia de local indicou que o veículo trafegava dentro dos limites de velocidade; e câmeras da empresa onde Francisco trabalhava teriam registrado a lanterna traseira da moto apagada antes de ele sair. O processo transitou em julgado em 5 de outubro de 2020.
A viúva de Francisco, Verlange Xavier da Silva, declarou em entrevista que “ninguém esquece” e que a dor pela morte do marido — pai de duas filhas que tinham 4 e 12 anos na época — permanece presente. Como único resultado concreto para a família: uma pensão mensal de R$ 800, determinada judicialmente. Fontes descrevem o desfecho como resultado de articulação intensa dentro e fora da corporação.
A ascensão na PF
Para entender como Marcelo Ivo chegou ao posto mais sensível da Polícia Federal nas Américas, é preciso detalhar como funciona a Superintendência de São Paulo. A estrutura tem três postos centrais: o superintendente no topo; o delegado regional executivo no meio, responsável pela parte administrativa; e o diretor de investigação na ponta operacional, que comanda os inquéritos e as operações contra o crime organizado.
Desde setembro de 2015, o superintendente de São Paulo era Disney Rosseti, delegado federal de Campo Grande (MS). O segundo no comando (ou “número 2”) era Luiz Roberto Ungaretti de Godoy — que em 2016 seria removido pelo ministro da Justiça Alexandre de Moraes para dirigir o Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional (DRCI) em Brasília, descrito pela Época como “uma pessoa de sua confiança”. A relação entre Rosseti e Moraes se consolidou nesse período.
Para o “número 2” vago, Rosseti trouxe Lindinalvo Alexandrino de Almeida Filho — o “Dr. Filho” —, delegado com três décadas de carreira, que assumiu o posto em fevereiro de 2016. Com Dr. Filho no posto administrativo, Marcelo Ivo se consolidou como “número 3” — diretor de investigação e combate ao crime organizado —, cargo que exerceu de março de 2018 a maio de 2021.
Em janeiro de 2019, o governo Bolsonaro nomeou Rosseti para a Diretoria Executiva da PF em Brasília — a Direx, estrutura que coordena as superintendências regionais e responde pela gestão de toda a corporação, segundo posto mais alto, subordinado apenas ao diretor-geral Maurício Valeixo. Dr. Filho assumiu a Superintendência de SP em março de 2019. Marcelo Ivo permaneceu onde estava — “Número 3”, com autonomia sobre investigações sensíveis do maior estado do país.
Em 19 de março de 2019 — apenas cinco dias após a abertura do Inquérito das Fake News (INQ 4781) —, Alexandre de Moraes designou o delegado federal Alberto Ferreira Neto para auxiliar nas investigações. No despacho, o ministro relator deixou registrado que a escolha foi feita por indicação de Disney Rosseti. Tratava-se de um dos primeiros atos concretos do inquérito que se tornaria um dos mais controversos da história do STF.
Em 24 de abril de 2020, Sérgio Moro renunciou ao Ministério da Justiça em protesto à demissão de Valeixo — ato que descreveu como tentativa de Bolsonaro de interferir nas investigações da PF. O presidente queria nomear Ramagem, então diretor da ABIN, para o posto. O STF bloqueou a nomeação por liminar concedida por Alexandre de Moraes, a pedido do PDT. Com Valeixo exonerado e Ramagem impedido, quem assumiu interinamente o comando da PF foi Rosseti — o homem que Moro havia levado a Brasília e o mesmo delegado cuja trajetória estava atada a Moraes desde 2016. A interinidade durou até maio de 2020.
Rosseti saiu da Direx. Mas não saiu da rede. Em maio de 2020, o ministro Luís Roberto Barroso, então presidente do TSE, criou a Assessoria Especial de Segurança e Inteligência do tribunal. Rosseti foi o escolhido para dirigi-la. Permaneceu no posto mesmo depois que Moraes assumiu a presidência do TSE, em agosto de 2022 — e em março de 2023 ainda era designado por portaria interna para comissões do tribunal. Foi sob Moraes que a Assessoria se converteu em Secretaria de Polícia Judicial, com Rosseti na chefia. Saiu em junho de 2024, quando Cármen Lúcia assumiu a presidência do TSE. Hoje está na Corregedoria-Geral da PF.
Da Paraíba à Miami
Marcelo Ivo foi nomeado superintendente regional da Polícia Federal na Paraíba em 21 de janeiro de 2022, durante o governo Jair Bolsonaro. A nomeação se deu no contexto das mudanças de comando promovidas pela gestão bolsonarista na estrutura regional da corporação. Tomou posse em 6 de maio daquele ano, em João Pessoa, substituindo o delegado Gustavo Paulo Leite de Souza, designado para função nos Estados Unidos. Permaneceu no cargo por cerca de oito meses.
Em 13 de janeiro de 2023, já no início do governo Lula, Ivo foi exonerado junto com outros 17 superintendentes da PF em todo o país, em uma troca ampla de comando regional promovida pela nova gestão. Meses após a exoneração, em julho, o Portal da Transparência registrou o pagamento de quase R$ 96 mil pela Coordenação-Geral de Administração da Polícia Federal, em Brasília. O valor era compatível com ajuda de custo para remoção ao exterior. Um mês depois, em agosto de 2023, Ivo assumiu o posto de oficial de ligação da Polícia Federal em Miami.
O posto é um oficialato de ligação da Polícia Federal instalado nas dependências do ICE em Miami. Não se confunde com uma adidância policial, categoria distinta dentro da própria estrutura da PF, com credenciamento junto ao Itamaraty. O oficial de ligação trabalha dentro de uma agência americana, não numa embaixada. O cargo abre canais de contato com autoridades migratórias e de segurança dos Estados Unidos, mas o acesso a sistemas depende, na prática, do lado americano. O cargo não é novidade. Desde ao menos 2019, a PF mantém um oficial de ligação junto ao ICE em Miami, com atribuição formal de troca de informações e cooperação em casos de extradição e imigração.
Em março de 2021, o governo Bolsonaro enviou para a vaga o agente da PF Fabrício Scarpelli — com extenso currículo operacional na corporação: integrou o GPI de São Paulo desde 2008, participou de mais de 60 operações e atuou como instrutor de armamentos químicos, menos letais e táticas operacionais. À época, a imprensa destacou sua proximidade com o ex-deputado Eduardo Bolsonaro e o fato de estar afastado da PF para exercer o cargo de assessor especial da Casa Civil no Palácio do Planalto.
Ouvido por esta reportagem, Scarpelli nega que tenha sido indicado pelo deputado. Segundo ele, a aplicação foi realizada pelo sistema interno da PF como qualquer outro candidato. Ele diz que a indicação que recebeu foi anterior, para atuar no SINC, o Sistema de Informações do Congresso — convite feito por Onyx Lorenzoni, que conheceu em seu posto no aeroporto de Campinas durante a campanha presidencial de 2018, antes de ele ser nomeado ministro-chefe da Casa Civil.
Segundo Scarpelli, já no início do governo Lula, começaram a chegar ordens informais — não por canal oficial — para que ele realizasse operações no exterior. Ele se recusou. Disse que o cargo tinha função exclusiva de troca de informações e que qualquer operação precisaria ser solicitada formalmente. A recusa desencadeou, segundo ele, um processo de pressão que culminou em crises de ansiedade e problemas de saúde.
Scarpelli pediu licença não remunerada. O pedido foi negado. Pediu demissão. O pedido ficou retido. Um colega o alertou que a corporação aguardava completar 30 dias de ausência para instaurar PAD por abandono de emprego. Quando chegou aos 28 dias, contratou advogado. Mesmo assim, o PAD foi instaurado. Em 20 de março de 2026, o Ministério da Justiça determinou o arquivamento do processo — mas Scarpelli já figurava no ato como “ex-Agente de Polícia Federal”. O arquivamento não reverteu a demissão: extinguiu a punibilidade do processo remanescente.
Houve também inquérito do Ministério Público por recebimento de recursos públicos — a ajuda de custo para retornar ao Brasil, que ele afirma ter tentado devolver e que a PF se recusou a aceitar. O caso terminou em Acordo de Não Perseguição Penal, após o MP constatar que não havia evidência de que ele exercia atividade remunerada nos EUA. Ele detinha licença de corretor de imóveis na Flórida, mas afirma que não trabalhava na área. Scarpelli permanece nos EUA.
Marcelo Ivo já está no posto há cerca de dois anos e oito meses. O prazo padrão das missões de oficial de ligação da Polícia Federal no exterior é de até dois anos e, pelas regras internas da corporação, pode ser prorro gado conforme as especificidades da missão, a critério da administração. Mesmo após ultrapassar esse prazo original, Ivo segue em Miami, na região de Brickell, centro financeiro da cidade — a mesma área em que foram instalados os escritórios de luxo ligados a Daniel Vorcaro e o Banco Master.
O espião espionado
Alexandre Ramagem já havia cruzado o caminho de ministros do STF muito antes de ser detido nos Estados Unidos. Delegado da Polícia Federal desde 2005, ele entrou no radar político de Brasília ao comandar, em 14 de novembro de 2017, a Operação Cadeia Velha, que prendeu Jacob Barata Filho, o Rei do Ônibus, e os deputados estaduais Jorge Picciani, Paulo Melo e Edson Albertassi, todos investigados por corrupção no esquema de propinas do transporte público fluminense.
A ofensiva atingia um círculo sensível. Barata Filho era ligado ao ministro Gilmar Mendes, padrinho de casamento de sua filha, amigo pessoal da família e, à época, sócio indireto do empresário por meio do cunhado. Nos meses seguintes, Gilmar concedeu habeas corpus a Barata três vezes, e o Ministério Público Federal chegou a pedir sua suspeição nos processos.
Menos de um ano depois, em setembro de 2018, Ramagem ganharia projeção nacional ao assumir a segurança pessoal de Jair Bolsonaro após o atentado em Juiz de Fora. A partir dali, consolidou-se como homem de confiança do então candidato e, depois, do presidente eleito. Em 2019, Bolsonaro nomeou Ramagem diretor-geral da Abin, cargo que ocupou até 2022, quando se filiou ao PL e foi eleito deputado federal pelo Rio de Janeiro. Em 2020, Bolsonaro tentou nomeá-lo para a direção-geral da Polícia Federal. Alexandre de Moraes bloqueou a nomeação, sob o argumento de que Ramagem representaria interferência política na corporação.
A ironia é que Moraes vetou o comando da PF a um delegado de carreira com base numa suposta interferência institucional que, segundo o próprio inquérito reaberto a seu pedido, não se comprovou. Em abril de 2026, na véspera da prisão de Ramagem nos Estados Unidos, a Polícia Federal concluiu pela segunda vez consecutiva que não havia elementos para justificar imputação penal no caso. O delegado Carlos Henrique Pinheiro de Melo, da Diretoria de Inteligência Policial, registrou em relatório que o próprio Moraes, quando consultado, informou não haver provas de interferência nos inquéritos sob sua relatoria. Moraes recebeu o documento e o encaminhou ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, sem arquivar nem decidir. O inquérito sem provas segue aberto.

Em setembro de 2025, Ramagem foi condenado pela 1ª Turma do STF, sob relatoria de Alexandre de Moraes, a 16 anos, 1 mês e 15 dias de prisão por organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito e golpe de Estado. A acusação central é a chamada “Abin paralela”: o uso da infraestrutura da agência, inclusive o software de espionagem FirstMile, para monitorar adversários políticos, ministros do STF e familiares de autoridades, produzindo relatórios de desinformação que teriam alimentado a narrativa de fraude eleitoral e os eventos de 8 de janeiro de 2023.
Não existem, porém, logs de acesso de Ramagem ao FirstMile. Foi justamente durante sua gestão que a Abin realizou a correição do sistema, apurou irregularidades no uso da ferramenta e produziu o relatório que a própria PGR usaria depois como prova contra ele. O software foi desativado em maio de 2021. O ministro Luiz Fux, em votos em processos análogos, já havia sinalizado que a ausência de prova direta de dolo fragilizava a base condenatória. A defesa recorreu e sustenta que a condenação equivale a responsabilidade objetiva disfarçada de direito penal.
A fuga e a armadilha
Ramagem saiu do Brasil em 9 de setembro de 2025 pela fronteira de Roraima com a Guiana, com apoio de aliados que viabilizaram sua rota de fuga. Da Guiana, embarcou para Miami. O documento usado foi o passaporte diplomático — que o ministro Alexandre de Moraes havia cancelado em 9 de junho de 2025, meses antes da fuga, mas que continuava aparecendo como “ativo” no sistema da Câmara por uma falha burocrática que não havia repassado a ordem ao Itamaraty. O Itamaraty confirmou formalmente, em 21 de novembro, que havia cumprido a determinação de Moraes desde junho — ou seja, Ramagem cruzou a fronteira e embarcou com documento que o próprio sistema brasileiro ainda não havia bloqueado nas bases de controle internacionais. O DHS registrou sua entrada nos EUA no dia 11 de setembro de 2025, com visto B-2 de turista, com prazo de permanência autorizado até 10 de março de 2026.
Em 17 de novembro de 2025, sua esposa Rebeca Ramagem — procuradora do Estado de Roraima havia 22 anos —, embarcava no Aeroporto Internacional do Galeão com as duas filhas, de 7 e 14 anos, em voo para Miami. Na entrada da aeronave, agentes da PF executaram um mandado de busca pessoal expedido por Moraes. Todas as bagagens foram retiradas do porão para revista. Os agentes apreenderam o celular e o computador de Rebeca — e o celular da filha de 7 anos. Rebeca não era ré, não era investigada e não respondia a nenhum processo. “O único e ilegal motivo apontado para essa ação é o fato de ser casada com Alexandre Ramagem”, escreveu ela nas redes sociais. O que os agentes não revelaram publicamente foi o elemento decisivo encontrado na inspeção: malas de Ramagem entre a bagagem — prova de que ela ia ao encontro do marido nos EUA. Nenhuma irregularidade foi formalmente declarada. Rebeca seguiu viagem. O alarme havia sido acionado em silêncio.
A partir do desembarque na Flórida, a PF teriam monitorado os deslocamentos. No aeroporto, Ramagem apareceu com um carro para buscar a família. O veículo foi identificado. Os agentes passariam a segui-lo até chegar ao endereço: o condomínio Solé Mia, em North Miami. Em paralelo, a PF descobriu que Ramagem havia comprado um carro nos EUA usando o passaporte diplomático já cancelado pela Justiça brasileira — argumento que tentaria usar para obter um mandado de prisão americano por fraude.
Dois dias depois, em 19 de novembro, o PlatôBR publicou reportagem assinada por Guilherme Amado revelando que Ramagem havia fugido do Brasil em setembro, estava nos EUA usando passaporte diplomático já cancelado por Moraes e se encontrava hospedado no Solé Mia, condomínio em North Miami. No mesmo dia, o PSOL entrou no STF com pedido de prisão preventiva. Dois dias depois, o tribunal decretou a prisão. Forçado pela exposição pública do endereço, Ramagem se mudou para a região de Orlando.
Não era a primeira vez que Amado aparecia como pivô em ações contra alvos do campo bolsonarista. Em agosto de 2022, quando era colunista do Metrópoles, publicou mensagens do grupo de WhatsApp “Empresários & Política” — material que Alexandre de Moraes usou como base para ordenar mandados de busca e apreensão contra oito empresários. Em outubro de 2023, sua reportagem afirmando que Filipe Martins havia viajado a Orlando e “evaporado” foi posteriormente usada pela PF para justificar sua prisão preventiva — embora o registro de entrada de Martins nos EUA tenha sido contestado e o juiz do caso federal em Jacksonville reconhecesse irregularidades no sistema do CBP. Em todos os três casos, a publicação antecedeu a ação institucional. Em nenhum deles Amado respondeu publicamente sobre a origem das informações.
Segundo Eduardo Tagliaferro, ex-chefe da Assessoria de Enfrentamento à Desinformação do TSE, a documentação que embasou a operação contra os empresários foi produzida a posteriori, com datas retroativas. A afirmação é corroborada por perícia contratada por A Investigação, segundo a qual o relatório atribuído ao delegado Fábio Alvarez Shor, embora datado de 19 de agosto de 2022, só foi gerado em PDF em 29 de agosto, seis dias após o cumprimento dos mandados.
Em dezembro de 2025, a PF notificou a Interpol com a restrição do passaporte cancelado de Ramagem — que até então não constava nos sistemas internacionais. No mesmo período, a PF submeteu à Justiça americana um pedido de mandado de prisão com base no argumento de fraude: a compra do veículo com passaporte cancelado. O pedido foi negado. A Câmara formalizou o cancelamento protocolar do passaporte diplomático em 19 de dezembro de 2025, após cassar o mandato. Sem passaporte válido — o diplomático cancelado por Moraes desde junho, o comum sem validade —, Ramagem permanecia nos EUA amparado exclusivamente pelo visto B-2, que venceu em 10 de março de 2026, e pelo pedido de asilo protocolado antes dessa data.
Segundo a BBC News Brasil, investigadores brasileiros temiam que o pedido formal de extradição fosse rejeitado pelo secretário de Estado Marco Rubio — cargo com poder de decisão final sobre extradições nos EUA, ocupado por um nome politicamente simpático à direita brasileira. A detenção via ICE era o atalho: contornar Rubio e forçar a remoção de Ramagem sem passar pelo crivo diplomático americano. Os próprios investigadores admitiram à CNN Brasil que a detenção não tem relação com a condenação no STF. Desde dezembro de 2025, Ramagem participava regularmente do programa Conversa Timeline, com Allan dos Santos, fundador do portal Terça Livre, também exilado nos EUA por perseguição judicial.
Trinta e quatro dias depois do vencimento do visto, em 13 de abril de 2026, Marcelo Ivo deu os alertas que resultaram na abordagem. Agentes do ICE pararam Ramagem numa rua de Orlando com a justificativa de uma infração de trânsito — constataram o passaporte cancelado e o visto vencido, e o levaram ao Centro de Detenção de Orange County. A infração de trânsito foi o pretexto formal. A operação que o levou até ali durou meses.
A libertação e o final feliz
Dois dias depois, em 15 de abril de 2026, Ramagem foi solto sem fiança. O ICE comunicou à PF que ele pode aguardar em liberdade a conclusão do processo de asilo. Em vídeo gravado ao ar livre logo após a saída do centro de detenção, Ramagem agradeceu ao governo Trump pela liberação e afirmou que sua situação “é absolutamente regular”.
A soltura de Ramagem pegou a PF de surpresa. A corporação havia agendado uma reunião com autoridades do ICE para 16 de abril e, antes disso, preparava um dossiê para entregar ao Enforcement and Removal Operations, divisão responsável por deportações, com o objetivo de impedir a liberação de Ramagem e acelerar sua remoção para o Brasil. A soltura, porém, ocorreu um dia antes da reunião, sem comunicação formal prévia ao governo brasileiro. Quando a liberação veio a público, a corporação ainda aguardava esclarecimentos — e o dossiê não chegou a ser entregue.











