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Gilmar ironiza Moro sobre “Tigela com G ou J?” e STF vira palco de ataque político em cerimônia oficial

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Ironia de Gilmar contra Moro expõe Supremo como ator político ativo — e reacende debate sobre poder, protagonismo e limites institucionais

Por: [Manuel Menezes]

O que deveria ser uma celebração solene dos 135 anos do Supremo Tribunal Federal transformou-se em demonstração explícita de confronto político.

Durante o evento oficial da Corte, o ministro Gilmar Mendes ironizou o senador Sergio Moro com uma frase que rapidamente repercutiu no meio político e jurídico:

“Moro talvez não soubesse se ‘tigela’ é com G ou J.”

A declaração não foi feita em um debate acadêmico.
Não foi concedida em entrevista informal.
Foi pronunciada em cerimônia institucional do STF — financiada com dinheiro público.

O episódio vai muito além de uma divergência pessoal. Ele reforça uma percepção crescente no país: parte do Supremo deixou de atuar apenas como árbitro constitucional e passou a ocupar o centro do embate político nacional.

O Supremo como protagonista político

Gilmar criticava a Lava Jato e a imprensa quando atacou Moro. Disse que jornalistas teriam atuado como “ghostwriters” do ex-juiz e ironizou sua capacidade de escrita.

Mas o que chama atenção não é a crítica à operação — já amplamente debatida e revisada pela própria Corte. O que chama atenção é o tom.

Quando um ministro da Suprema Corte ridiculariza publicamente um senador que responde a processo na própria instituição, o gesto deixa de ser apenas retórico. Ele passa a carregar peso institucional.

A pergunta que ecoa fora do plenário é direta:

O STF ainda se comporta como Poder moderador ou assumiu definitivamente papel de ator político?

Processo em curso e conflito explícito

Moro é réu por calúnia após afirmar, em 2022, que um habeas corpus poderia ser “comprado” do ministro. A denúncia foi aceita pela 1ª Turma do STF.

O processo segue tramitando.

Mas quando o magistrado que integra a Corte ironiza publicamente o réu em evento oficial, a fronteira entre julgamento técnico e embate pessoal se torna cada vez mais nebulosa.

Em qualquer democracia consolidada, a aparência de imparcialidade é tão importante quanto a imparcialidade em si.

O STF acima das críticas?

Durante o discurso, Gilmar também afirmou que a imprensa cria a impressão de que “todos os problemas do país se restringem ao Supremo” e sugeriu que há foco excessivo sobre a Corte.

O ponto, porém, é simples: quanto maior o protagonismo institucional, maior o escrutínio público.

Nos últimos anos, o STF:

  • anulou condenações da Lava Jato;
  • interferiu em temas eleitorais;
  • abriu e conduziu inquéritos de ofício;
  • ampliou sua atuação sobre o Congresso e o Executivo;
  • tornou-se peça central nas principais crises políticas do país.

Esse conjunto de decisões consolidou o Supremo como uma das forças mais influentes da República — mesmo sem voto popular.

Com tamanho poder, a expectativa da sociedade é proporcional: sobriedade, equilíbrio e autocontenção.

Dinheiro público e liturgia do cargo

Ministros do STF possuem vitaliciedade, estabilidade e prerrogativas amplas para garantir independência diante de pressões políticas. Essas garantias existem para proteger a Constituição.

Não foram criadas para transformar a Corte em arena de disputa retórica.

A cerimônia dos 135 anos era um evento institucional. Não um palanque. Não um comício. Não um debate eleitoral.

Quando o tom adotado se aproxima do embate partidário, a imagem da instituição sofre desgaste — e a percepção de neutralidade fica comprometida.

Democracia exige equilíbrio

O Supremo é guardião da Constituição.
É financiado com recursos públicos.
E ocupa o topo do Judiciário brasileiro.

Em um ambiente político já polarizado, cada palavra de um ministro carrega peso institucional.

O episódio reforça uma discussão que cresce no país: o STF deve exercer seu papel constitucional com firmeza — mas também com contenção.

Porque, numa República, a autoridade das instituições não se sustenta apenas pelo poder que exercem, mas pela postura que demonstram ao exercê-lo.