Por: [Manuel Menezes]
A Acadêmicos de Niterói transformou a avenida mais famosa do país em vitrine de exaltação ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, enquanto retratava seus adversários como vilões e caricaturas. Michel Temer puxando a faixa presidencial. Jair Bolsonaro representado como um palhaço usando a faixa. Lula preso. Lula solto. Lula de volta ao poder sob aplausos.
Não houve sutileza. Houve mensagem.
E a mensagem foi clara: “O amor venceu o medo” — slogan político travestido de elemento artístico.
🎭 Carnaval ou comício?
O Carnaval sempre foi espaço de crítica social. Mas o que ocorreu foi diferente. Não se tratou de questionar estruturas de poder, mas de promover um líder político em exercício, reencenar disputa eleitoral recente e reproduzir gritos de militância e número de urna em rede nacional.
Quando uma escola de samba incorpora slogan partidário, símbolos eleitorais e dramatiza a derrota de adversários como espetáculo, a linha entre manifestação cultural e propaganda política deixa de ser tênue — torna-se visível.
Se isso não é campanha indireta, o que seria?
⚖️ A lei permite tudo?
A legislação eleitoral proíbe propaganda antecipada com pedido explícito de voto. É o detalhe técnico que sustenta a defesa automática: “não houve pedido de voto”.
Mas política não se resume a formalidade jurídica.
Existe o impacto. Existe o alcance. Existe o benefício simbólico.
Um presidente em exercício, com máquina pública, visibilidade institucional e agora também com a maior vitrine cultural do país encenando sua narrativa política como epopeia heroica.
Isso altera o ambiente eleitoral.
Não é sobre ilegalidade declarada.
É sobre vantagem política.
🏛️ O silêncio que fala alto
Em outros contextos, manifestações com menor alcance já foram alvo de análise rigorosa da Justiça Eleitoral. Aqui, o silêncio institucional chama atenção.
Se o critério passa a ser apenas o pedido explícito de voto, abre-se uma brecha estratégica: basta evitar a frase mágica e transformar qualquer evento de massa em propaganda emocional.
A lei vira formalidade. A campanha vira permanente.
🧨 A normalização da campanha contínua
O desfile deixou uma pergunta incômoda no ar:
Estamos diante de um novo modelo de disputa política, onde cultura, espetáculo e entretenimento são utilizados como ferramentas narrativas permanentes de construção eleitoral?
A Sapucaí sempre foi palco de crítica ao poder.
Mas agora foi palco de celebração direta de quem ocupa o poder.
E isso muda o jogo.
📌 O ponto central
Não se trata de censurar escola de samba. Não se trata de impedir manifestações culturais.
Trata-se de discutir limites.
Porque se um presidente pode ter sua trajetória eleitoral exaltada em espetáculo nacional sem qualquer debate institucional, o conceito de propaganda antecipada torna-se cada vez mais simbólico.
E quando as regras parecem flexíveis para uns e rígidas para outros, a percepção pública de equilíbrio começa a ruir.
A política já começou.
Mesmo que oficialmente digam que não.
Por: Manuel Menezes











